quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quer monogamia? Case-se com um cisne. Mas proiba-o de blogar, tuitar...

por Cesar Valente  *
Meus trezentos anos de fidelidade à mesma mulher causam um certo espanto e muita incredulidade mesmo entre amigos mais chegados. Monogamia é uma convenção social que em certos círculos foi dada como extinta, desaparecida, transformada em objeto de estudo antropológico. Digna de merecer cuidadosas escavações, onde cada grão de poeira é retirado meticulosamente, com delicados pincéis.
 Leda e o cisne, versão moderna de Botero (exposição em Veneza)
  
 Eu nunca fui um sujeito monogâmico. Tive a sorte de encontrar uma criatura que é, literalmente, todas as mulheres do mundo. E isso sempre me bastou. Duzentas ou trezentas mulheres em três décadas é número suficiente. Foi isso que tive com esta única pessoa multifacetada.
Morto de medo e inseguro como Tiradentes a caminho do barbeiro (consta que lhe apararam a barba antes de enforcar), ofereci, em troca, algumas dúzias de personagens. Não sei, contudo, até hoje, se cumpri adequadamente com os deveres. Porque elas são tantas e tão variadas que às vezes não volto a encontrar aquela uma e daí não tenho como perguntar “gostaste?” 

E de uns anos pra cá tenho sentido reacender, bem aqui, debaixo do plexo solar, exatamente onde o estômago toca, de leve, o coração e onde o diafragma, em dia de vento sul, arrisca alguns soluços, um impulso poligâmico. Não tenho tempo. Vocês sabem, as estatísticas vivem repetindo que o homem vive menos que a mulher. Por isso serei breve, direto, sucinto e até rude. 

O que a Teruska tem-me dito ou sugerido merece, no mínimo, um flerte de mãos dadas em algum bistrô parisiense e com certeza três dias e noites de loucura em algum resort da costa baiana. O que a GiNiki me sugere (intencionalmente ou não) não tem outro significado que a partida imediata para Niterói (onde ela mora), nem que seja apenas para ficar do outro lado da rua, suspirando à sua passagem. O que a Cé me disse em secreta correspondência exige corrida em câmera lenta numa praia do Caribe e lento mergulho em lencóis de seda chinesa (à falta de algodão egípcio). E tudo o que a Cris tem-me feito passar poderia fazer com que, alucinado, eu lhe escrevesse aquilo que outros disseram primeiro: “senhora, eu vos amo tanto que até por seu marido sinto um certo quebranto”. Só nesse parágrafo descompromissado já são quatro novas amásias, amantes, esposas, caracterizando cristalinamente a poligamia a que esse veículo tem-me obrigado. Ora, dirão os exegetas, “a coisa não se consumou”.


 Acima: César e Lúcia em foto que ilustrou o casamento deles em 1977, tirada pela querida Graça Seligman. A foto com neve no cenário (Chile) é recente.


Respondo, com a límpida claridade do macho saciado: “não conheces a força da imaginação...” Uma vez que o monógamo imaginou-se nos braços, ou apenas ao alcance dos olhos, quem sabe da voz, de outras, desfez-se a aura santificada e luziu o tremeluzente brilho purpúreo e rubro do pecado. Maravilha das maravilhas, o pecado foi inventado para dar ao trivial um sabor agridoce e raro. 

Minhas lindas, minhas belas, minhas amigas, não se assustem com estas reflexões. Mesmo as não citadas são devidamente pensadas, sonhadas e desejadas. O polígamo virtual é um dependente químico-físico que precisa de ajuda. Braços, bocas, mãos, seios, tudo é importante para que a gente possa recompor o equilíbrio e voltar a ser a criatura cordata e monogâmica que nascemos para ser.
  
Todas as mulheres do mundo não é apenas o título de um filme. É, desde sempre, meu lema. Vou começar pela minha rua, mas em dez ou doze anos chegarei a Brasília. E poderei, finalmente, saber o sabor real que tantas bocas têm. Assim, à distância, parecem ótimas. E dignas do rompimento do voto de monogamia que este asceta proferiu, em 1970, ainda eufórico com o tri, diante de uma imagem de São Nelson Rodrigues. Boa noite e sonhem comigo.

 * Cesar Valente é jornalista, escritor, marido, pai e avô. Já morou e trabalhou em Brasília. Vive atualmente em Florianópolis. 
O titulo original do Post é : 'Proposta poligâmica'

6 comentários:

  1. Amei... Que lindo post! Que lindo casal! É bom lembrar que existe amor assim, entendimento assim, cumplicidade assim. Vocês são o máximo. César, pode estar certo de que eu e todas as mulheres do mundo vamos sonhar que você continua exatamente assim. Alguém com sensibilidade para perceber que teve "a sorte de encontrar uma criatura que é, literalmente, todas as mulheres do mundo". E reconhecer que isso sempre lhe bastou. "Duzentas ou trezentas mulheres em três décadas é número suficiente. Foi isso que tive com esta única pessoa multifacetada". Arrasou.
    Lúcia, todas as mulheres do mundo querem te conhecer. Beijo para o casal!

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  2. César, querido
    Muitas mulheres devem invejar a sua Lúcia - "Duzentas ou trezentas mulheres em três décadas é número suficiente. Foi isso que tive com esta única pessoa multifacetada". Mas acredito que muitos homens, talvez até alguns que leiam essa sua "declaração de amor", também sintam o mesmo.

    Muito bom ter vocês em minha vida. Saber que nem a distância, nem o tempo nos separaram.
    Beijo super carinhoso em você e na Lúcia.

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  3. O que podemos dizer? César, você é um felizardo!

    Abraço

    Café & Conversa

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  4. Posso garantir depois de ler esse post que você tirou na sorte grande. Parabéns.

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  5. Como dizem,cada um sabe onde o calo aberto. Mas o sorriso , no passado, do casal é o mesmo do presente. Décadas se passaram entre uma foto e outra.

    Dizem, que depois dos 50 temos o rosto, principalmente o olhar e o sorriso, que merecemos. Um dia meu pai me disse. Teus olhos são os mesmos de você criança. E eu já passava dos 40. Nunca me esqueço dessas palavras amorosas dele.

    Grande beijo pra vocês!

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  6. Só agora, no sábado de manhã é que vi esses comentários carinhosos. Muito obrigado à Clara pela publicação e a vocês pela leitura e pela generosidade.O título original dessa crônica era "Proposta de casamento poligâmico". Coisa que, de tanto que gosto das várias faces que toda mulher tem, sempre me passa pela cabeça. :-)

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