quarta-feira, 25 de abril de 2012

Adão Nascimento, talento e opinião

 por Laerte Rimoli 
 
Adão Nascimento. Um jornalista grandão, com coração de menino. Obrigado pela convivência. Ficamos um mês inteiro em Manaus, pelo jornal O Estado de S.Paulo, perseguindo mercenários que levavam armas para a Nicarágua. Era o início dos anos 80, em pleno regime militar. 
Corajoso, ele se enfiou sob o arame farpado que circundava o Aeroporto Eduardo Gomes, na capital amazonense, para chegar ao alvo, um avião Ilyushin, de bandeira Líbia, que tinha no interior armamento para a guerrilha da Nicarágua. Flagrante violação do espaço aéreo nacional.
O presidente Castello Branco  (de terno escuro, em primeiro plano, inaugurando uma rodovia no DF em 21 de abril de 1966: estou sorridente, sabe-se lá por quê, sem terno nem gravata, atrás do general Ernesto Geisel
Presidente Costa e Silva com jornalistas. 
Abaixo o último dos generais presidentes: Figueiredo, assina, a Lei da Anistia, 1979.


 Interceptado por dois recrutas da Força Aérea Brasileira armados com baionetas, Adão desdenhou da ameaça, afastou com o corpanzil quem tentava intimidá-lo e, máquina fotográfica no peito, altivo, chegou à escada do avião. Invadiu o interior da aeronave, espaço reconhecido por acordos internacionais como território estrangeiro e arrancou a primeira página. Seu olhar brilhava como criança que acaba de praticar uma traquinagem. Meu texto serviu apenas de suporte à bravura daquele jornalista ousado. Maior privilégio ter vivido isso contigo amigão. Vai com Deus. Missão cumprida. 
Ainda sobre o Adão Nascimento. Era homem "opiniudo". Não se incomodava de fazer inimigos na defesa intransigente dos seus pontos de vista. Presidiu, com mão de ferro e sabedoria, o Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto. Lutou contra a discriminação a repórteres fotográficos. Grande Adão. (Acima alguma das fotos do querido fotógrafo, colega de trabalho por décadas em Brasília. Faleceu ontem, 24, no início da tarde, no Rio de Janeiro, aos 82anos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Que saudade danada da Valéria!


 

Fins de outubro de 1982, ainda meio frio naquelas paragens da Zona da Mata mineira. Caminho pelo calçadão da Rua Halfed,  em Juiz de Fora, ao encontro de uma amiga que Antonieta Goulart queria me apresentar. Tratava-se de gente importante, repórter da então Globo local que entrava até no Jornal Nacional. Mas eu, intoxicado pelas novidades de Nova York, de onde acabava de chegar, não estava muito interessado. Tudo me parecia acanhado demais, liliputiano mesmo. Até encontrar Valéria.

  Ela vinha saindo da redação de blazer de linho e calça jeans, sapato mocassim combinando com o cinto. O cabelo cor de mel refletia os últimos raios do sol da tarde  e os olhos vivos saltavam do rosto cor de cobre separados por um nariz levemente aduncado. Lindos olhos tinha a Valéria. Os gestos decididos e a voz de comando faziam-na parecer maior do que era. Fiquei imediatamente encantado por ela.

  Tímido, me apresentei como um quase engenheiro que acabava de chegar de uma extraordinária aventura novaiorquina. “Também morei nos Estados Unidos, um  intercâmbio na Califórnia”, respondeu. Essa foi a chave que abriu a porta dos domínios onde eu e ela fomos felizes e infelizes por quase trinta anos, quase sempre muito próximos.

   Ao longo de todo esse tempo, nosso domínio mudou de domicílio. De BH para Londres e de lá para cá, o Rio, cidade que ela mais amava. E foi aqui que fomos mais felizes e loucos, mais loucos que felizes. Mas mesmo nos momentos de alegria, Valéria sempre demonstrava um certo incômodo. Em Londres reclamava muito da sisudez dos ingleses. No Rio, era a falta de civilidade generalizada que a exasperava. Tinha razão nos dois casos. Acho que Valéria não nasceu pra este mundo.

   Mesmo assim, era capaz de uma ternura desmedida. Sabia fazer um amigo se sentir importante. Não tinha vergonha nenhuma de proclamar seus poucos amores.  Gostava de receber em casa e sempre inventava uma desculpa pra não sair. Pra convencê-la a vir a minha casa, lançava mão de estratagemas às vezes trabalhosos. A última vez que tive sucesso foi quando cozinhei uma moqueca de camarão – que ela amava – e decretei: 'se você não vier eu fico com raiva'. Felizmente veio e foi a última vez que conversamos ainda sem nos darmos conta da ameaça permanente da morte.

  Valéria faria hoje 59 anos. Por mais que já se tenha passado quase um ano e meio, ainda a vejo de relance nas ruas do Leblon. E num desses dias de sol escaldante acordei com vontade de ligar pra convidá-la prum chopinho na praia. Raramente ela se aventurava além do calçadão, mesmo porque, cumpridora da lei, não permitia que Pablo brincasse na areia.

   Hoje vou ao Leblon no fim da tarde para homenageá-la. Era lá que ela passeava com o Pablo, companheiro de todas as horas. A saudade dói ainda muito forte, latejada como disse Chico. Continuo achando absurdo que ela não esteja aqui. Não entendo ainda essa partida tão prematura. Ainda não aprendi totalmente a lidar com a ausência dela. Talvez daqui um tempo a lembrança me faça companhia. Mas hoje ela ainda é um espeto fincado no coração.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

SOWETO, SOU GUETO

por Memélia Moreira
 
Nas minhas muitas inquietudes que se traduziram em viagens, fui a um país que me fascinava e pelo qual sentia repulsa. O deserto de Kalahari, a altivez do povo Zulu, o repugnante apartheid que marcou a história do país, Nélson Mandela, Dom Desmond Tutu, o escritor J.M. Coetzee, a África do Sul sempre frequentou meu mapa aventureiro. E foi assim que em 2000 embarquei para aquele país, onde a África flerta com a Austrália, a duas esquinas do fim do mundo.
 
 
Cruzei o deserto de Kalahari, porque os desertos me magnetizam, estive em Joanesburgo, Durban, Pretória, Cidade do Cabo, mas não ouvia ninguém me indicando uma visita ao Soweto, a favela da resistência negra que se transformou em cidade, ao lado de Joanesburgo. Mas foi lá que vivi uma das grandes emoções de minha vida. 
 
 
Não havia hotel em Soweto. Nem brancos. Fui de táxi. O motorista, um ex-piloto chamado Isak, não gostou quando lhe disse que voltasse no dia seguinte para me buscar. É que decidi dormir em Soweto. Ele fez careta garantindo que o lugar era perigoso para negros e não negros. Ignorei o conselho e rodei a favela, até encontrar a "Casa di Stella", um bar-restaurante, onde à noite negros se reuniam para tocar jazz e que foi também minha pousada na noite de 9 de março de 2000. 
 
Stella, a proprietária, me recebeu como se me conhecesse e quando lhe disse que queria dormir na favela, não se alterou e me levou a um cubículo com esteiras de palha nova e disse que eu podia dormir ali, "sem medo". Perguntou se eu ia almoçar e me deu um guia para visitar a favela.
 
Estive na casa onde Mandela viveu antes de passar 27 anos na cadeia. Toda perfurada de balas, chão batido, a casa era só o prenúncio do que me esperava. Caminhei pelas ruas e, vi uma escola quando, de repente, percebi um  Memorial. Eu estava exatamente no lugar onde acontecera o "Massacre de Soweto". 
 
Meu corpo sacudiu e chorei. Era hora da saída da escola. As crianças, pulando e rindo, vinham em debandada. Foi aí que tive a exata noção do que aconteceu no dia 16 de junho de 1976. Estudantes faziam um protesto pacífico por melhores condições de ensino e foram massacrados. A polícia descarregou suas balas usou bomba de gás lacrimogêneo e testou bomba de petróleo. Quatro estudantes foram mortos. Um deles, Hector Pierson, tinha 13 anos. Conhecia a história porque o noticiário correu o mundo e vi pela televisão no momento em que amamentava Cristina, minha filha mais velha. Naquele março de 2000 chorei tanto ou mais do que em junho de 1976 porque pensei em outros massacres onde mataram crianças. E escrevi o "poema" que se segue.
 
Antes de mais nada, peço desculpas porque não sei se é exatamente um poema. vamos chamá-lo apenas de "poético".
 
Ruas de lata,
homens de luta.
Terra cinzenta de um povo
da cor da noite
Soweto, Soweto.
Sou gueto.
O mesmo sorriso fácil das crianças
do Jardin de Luxembourg', Hyde Park, Manhhatan,
Diauarum, Mekness, Lago Sul.
O mesmo alarido infantil
nos uniformes em azul e branco na saída da escola.
Mas conheceram o sangue,
antes de conhecerem a vida.
Too young to die, e mesmo assim
se foram naquele inverno de 76.
Pobre menino negro e seu olhar perplexo,
carregando um corpo igual na cor, nos sonhos, na sina.
Meu corpo estremeceu no teu Memorial e
as bombas de petróleo ecoavam em todos os meus sentidos.
Soweto, MyLai, Puerto Cabezas, Haximu, Rocinha, Kosovo, Sabra, Chatila, Treblinka
Minhas crianças que jamais crescerão.
Por que plantaram tantos hectares de ódios? Por que?
Soweto do langor mississipiano, do sax de liberdades.
Soweto livre no batuque da rua, reconstruindo a desconstrução.
Soweto desafio da pátria resistente,
te entrego aqui lágrimas e minhas mãos para dançarmos a ciranda 
das emoções, nesta aldeia universal.
Soweto, meu povo, meu amor.

Em 09/03/2000

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

La Peau Douce ... Nas asas da Panair

 por Clara Favilla

É início de tarde, terça-feira, 13 de dezembro. Míriam Leitão lembrou no twitter que há 43 anos, nesse mesmo dia, militares e ministros civis como Antonio Delfim Neto, assinaram o Ato Institucional número 05 (AI 5), declarando o fim do Estado de Direito no Brasil. Eu tinha 18 anos. Só dois anos depois eu estudaria na Universidade e Brasília 


Tenho muito o que fazer ultimamente e de dez coisas, acabo fazendo, por dia, duas de uma lista já em decomposição, Outras simplesmente vão acontecendo, aumentando a lista de pendências. Na lista de coisas chatas: contas a pagar, e-mails importantes não respondidos,  um trabalho de edição a finalizar e o pior: entrar no site da Receita e parcelar impostos em atraso. 

Também tem o trabalho de arrumação do escritório em andamento. Resolvi encaminhar para a reciclagem centenas de revistas que colecionei nos últimos anos. Ocuparam duas grandes caixas de papelão. Uma já foi despachada. Outra está no ponto de ser fechada. Todo trabalho pesado emocionalmente, e o de me organizar certamente é um deles, me (nos) deixa à beira de uma ataque de nervos. E foi assim que passei a manhã. Me livrando de parte do conteúdo das minhas estantes.


Cansada, resolvi dar uma parada depois do almoço.  Liguei a TV e um filme começava. Em preto e branco. Telecine Cult. E fui aos poucos reconhecendo aquela  história, que de início, me pareceu banal. A de um homem casado que numa viagem de trabalho se encanta por uma aeromoça. Prestava atenção com meus olhos de jornalistas e já fazendo reportagem. Começaria assim: É possível se reconhecer,  em filmes antigos, a Paris de hoje. Uma das  cenas se passa exatamente em determinado ângulo da Place de la Bastille. Depois aparece um aeroporto, o de Orly, o mais importante de Paris na época. O estacionamento em frente, está cheio de vagas. Impossível um filme atual em que o personagem chega e estaciona tranquilamente bem em frente à área de embarque. O avião é da Panair do Brasil.

Levei um susto imenso nas asas da Panair
Descobri que as coisas mudam 
e que tudo é pequeno nas asas da Panair
A primeira Coca- Cola foi me lembro bem agora
Nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo
nas asas da Panair


Logo em seguida, paro de fazer reportagem. Mergulho mais profundamente na sequência de imagens. Acontecem em um ritmo mais lento. Me parecem tão belas, tão íntimas, tão ternas que, de repente, eu estava de celular em punho fotografando a tela da TV. 

Qual o espanto?  É um filme de Truffaut (1964). Naquele ano, eu estava concluindo o Ensino Fundamental. Amaria Truffaut só anos mais tarde. E até hoje seus filmes me levam, invariavelmente, às lágrimas.  Chorei de soluçar, enquanto almoçava em um restaurante de Brasília, e uma amiga resolveu me contar a história de 'A mulher ao Lado', lançado em 1981. Já estávamos em 1984 e  eu não o havia assistido. A expressão "Nem juntos, nem separados", define o filme que acaba em tragédia.
 
Não vou escrever sobre o filme  de hoje, La Peau Douce.  Achei, via Google, o texto que vai abaixo no site http://cineweb.com.br . É de Neusa Barbosa. Tem muitas informações sobre o filme e sobre o processo criativo de Truffaut.

"Uma única cena define o espírito de Um Só Pecado: um homem casado, de meia-idade (Jean Desailly), tira as meias de sua jovem amante (Françoise Dorléac), acariciando suavemente sua pele doce, remetendo ao nome original francês (La Peau Douce). Esta seqüência, ao mesmo tempo de um erotismo e de uma delicadeza raras, revela melhor do que nenhuma outra a força do desejo que move a história.
François Truffaut, o diretor e roteirista, sabia bem do que estava falando. Afinal, este seu quinto filme era altamente autobiográfico, como praticamente todos os demais, aliás. Vivia uma crise em seu casamento, tinha tido um caso com uma aeromoça e, como o protagonista, saíra para comprar meias de seda para a amante. Cenas da vida do casal em crise foram filmadas no próprio apartamento em que Truffaut morava com a mulher, Madeleine, e suas duas filhas, em Paris.

Um Só Pecado é a autópsia do casal, um filme incrivelmente deprimente, sem saída, sem solução", definiu ele numa citação de sua esplêndida biografia, François Truffaut, escrita por Antoine de Baecque e Serge Toubiana. Nada mais exato do que essa descrição: pouco depois da estréia do filme, que concorreu no Festival de Cannes em 64 e foi mal recebido pela crítica francesa, ele e a mulher divorciaram-se. Um Só Pecado é, portanto, retrato de uma intimidade que Truffaut não hesitou em dividir com o público, da mesma forma que expôs os traumas de sua adolescência complicada na série de filmes com o personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud, que aqui funciona como seu assistente de direção).

Visto apressadamente, o filme pode parecer um retrato banal da crise de um casamento. A primeira armadilha, no caso, é deixar-se enganar por essa aparente simplicidade. O diretor fez aqui o que sabia melhor - traçou um painel intenso dos sentimentos humanos, com uma impecável economia de imagens e palavras. Nada sobra, nada falta nas obras desse cineasta, um esteta que dominava o segredo de não enfadar o público nunca estendendo-se além da medida.

O marido da história é Pierre Lachenay (o ator de teatro Jean Desailly), diretor de uma pequena mas prestigiada revista literária. Casado com Franca (Nelly Benedetti), tem uma filha pequena, Sabine (Sabine Haudepin, vista em outro filme do diretor, Jules e Jim). Com uma vida tranqüila, acomodada, Lachenay viaja bastante, realizando conferências. Numa delas, conhece uma jovem aeromoça, Nicole (Françoise Dorléac, bela e talentosa irmã mais velha de Catherine Deneuve, que morreu num acidente em 1967, aos 25 anos).

A partir desse encontro, tudo na vida do jornalista é turbilhão. Lachenay vive afobado, correndo, mentindo para encontrar a jovem, que também leva uma vida itinerante. As diferenças entre os dois serão expostas numa viagem a Reims, onde ele deve fazer uma conferência, e ela o acompanha. Os planos dele, de desembaraçar-se rapidamente do compromisso profissional para ficar com a moça, são desafiados por uma extensa agenda social, armada por um colega de juventude (Daniel Ceccaldi), disposto a impressionar a sonolenta sociedade provinciana às custas do visitante. Colocada na posição clandestina de amante que deve esconder-se, a moça ameaça ir embora.

Outro segredo de Truffaut ao contar esse tipo de história é jamais resvalar para qualquer sinal de vulgaridade, nunca aumentando a temperatura das emoções mais do que precisa para descrever uma situação. Assim, mesmo uma personagem exacerbada como a mulher traída nunca perde a estatura humana, por mais radical que seja a solução que ela encontra para seu próprio drama.


Além de sua própria biografia, Truffaut também gostava de colecionar recortes de jornal, impregnando ainda mais de realidade os seus roteiros. Aqui, recheou a história com detalhes tirados de dois famosos crimes pós-adultério, o caso Jaccoud, ocorrido em Genebra nos anos 50, e o caso de Nicole Gérard, na França, em 63 - de onde ele tirou a situação no restaurante com o fuzil de caça.

Outra curiosidade está no próprio nome do protagonista, Lachenay, que era o sobrenome do melhor amigo do diretor na vida real, Robert Lachenay, que apresentou Truffaut à obra de Balzac, objeto da primeira conferência do personagem no filme.

Dizer que já não se fazem mais cineastas como François Truffaut pode parecer saudosismo, mas é a mais pura verdade. E, como a maioria de seus filmes sequer existe em vídeo, muitos fãs mais jovens de cinema nem mesmo têm a oportunidade de conhecê-lo, fora das mostras e relançamentos especiais, como é o caso deste, e que deve ser ainda mais comemorado por ser em cópia nova.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Guerras Desconhecidas do Brasil (Estadão) ganha Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo

 Por Leonêncio Nossa 

O caderno especial “Guerras Desconhecidas do Brasil”, do Estadão, venceu o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo (Categoria Especial - resgate Histórico), que vem sendo concedido desde 1984 pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul e Ordem dos Advogados do Brasil.


A reportagem recebeu o “Prêmio Especial” do júri, pelo “resgate histórico” de 32 conflitos populares ao longo do século 20. Os jurados consideraram que o caderno foi um dos “melhores trabalhos apresentados nos 28 anos do prêmio”.

Um parentese, por gentileza: Eu sei que a questão dos direitos humanos perdeu espaço para outros temas até mesmo na rede de organizações sociais... eu sei que a "moda" é discutir "mídia"... eu sei que as universidades guardaram suas bandeiras históricas... eu sei que os governistas de ontem e os de hoje acham que o Brasil deve ir "para frente" a qualquer custo, sem garantir a integridade de comunidades tradicionais, os direitos dos peões e o respeito aos excluídos de sempre... eu sei que questionar - só questionar - um projeto de infraestrutura dos tempos sombrios de Geisel pode, agora, render rótulos estranhos... eu sei que o amigo da esquina pode zombar de uma demonstração de espanto diante do tratamento de presos nas delegacias, do fuzilamento de civis pelas polícias do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Recife...

Enfim... paciência... o que a gente curte mesmo é falar dos brasileiros simples... é ironizar militantes e suas causas "grandiosas"... é publicar uma reportagem clássica.

NR . O Caderno Especial do Estadão com a reportagem vencedora foi assinado por LEONENCIO NOSSA e CELSO SARMENTO

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Desassombro dos Ignorantes ou A Coragem dos Ingênuos

por Laerte Rimoli

"Por que me arrasto a teus pés, por que me dou tanto assim?"


Era algum dia do primeiro semestre de 1981. 
O país estava em sobressalto com a explosão da bomba do Riocentro no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário. O sargento morreu e o capitão Wilson Luiz Chaves Machado, que estava ao seu lado num fusca, ficou gravemente ferido. Aos 25 anos, magro e de barba rala, eu era repórter da Revista Veja e cobria o Palácio do Planalto. 

O assunto mobilizou por meses a imprensa e deixou exposta a guerra fratricida entre os generais Octávio Aguiar de Medeiros, do SNI, e Golbery do Couto e Silva, do Gabinete Civil. Medeiros, linha-dura, queria por uma pedra sobre o assunto, o famoso “abafa o caso”. Golbery, que vislumbrava o fim do regime militar, desejava esclarecer o episódio. O ambiente ficou carregado em Brasília e o Palácio do Planalto pequeno para os dois generais (Golbery acabou caindo).

O presidente Figueiredo viajou para Patos, sertão paraibano. Lá fui eu. Calor senegalês.
Chegamos por volta das 15:00. Enquanto os repórteres de jornal, que cobriam o dia-
a-dia, correram ao posto dos Correios e Telégrafos, em busca de um telex (era assim
que se passava matéria naquela época, picotando uma fita frágil) fui atrás do general
Medeiros. Soube que ele estava no clube da cidade. Saltei o muro (não era muito alto) e
me materializei na frente do Chefe do SNI , do general Danilo Venturini e do secretário
particular da presidência da República, Heitor de Aquino.

Laerte e Medeiros. Charge de Tercio Rimoli

A princípio surpreso com minha abrupta aparição, Medeiros com um copo alto de
whisky (debaixo daquele solão), os indefectíveis óculos escuros dos arapongas,
de calção e sem camisa, logo relaxou e desanuviou o clima. Perguntou como
trabalhávamos, como era nossa relação com as repórteres, queria saber quem namorava
quem, confessou sua predileção por uma coleguinha, enfim, demonstrou curiosidade
sobre nossa atividade. Sentei-me no degrau da piscina, tirei os sapatos, molhei os pés
e o generalzão ficou num patamar acima. 

Quando senti que o homem tava maduro, sapequei: “Ministro, como fica o caso Riocentro? É verdade que o governo resolveu, intramuros, que o assunto morreu?” “Não gosto da expressão intramuros”, grunhiu ele. Eu troco por “a quatro paredes”. Melhor assim. “O monstro” *, como era conhecido na caserna, já não estava tão amistoso. 

Fiz outra investida e ele resmungou qualquer coisa. Aí a juventude se manifestou. Agarrei-me à perna do general e cantei: “Por que me arrasto aos seus pés, por que me dou tanto assim...”??? Ele tentava se desvencilhar. A cena, patética e inusitada, provocou risos em todos nós. Fui expulso do local e passei a ter encontros periódicos com o general no restrito quarto andar do Palácio, espaço vedado a repórteres. Frases curtas e secas que eram repassadas ao editor, o brilhante Elio Gaspari. Escute aqui Desabafo (Roberto Carlos)

Meu esforço se prestava muito mais como orientação para as matérias sobre a
briga do poder do que propriamente em declarações à Veja. Não publiquei muita coisa
(o cúmulo do antijornalismo) mas confesso: o sisudo general se divertiu bastante com
minha impertinência. E eu com a dureza forjada na caserna. Lembrarei de outras farras
que fiz com esses generais.

* Vocês se lembram que houve tempo em que acusavam os militares de comer
criancinha, neh?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não fui eu que mudei de lado!

Por Kátia Maia  

Clique no nome para conhecer o blog da autora  

Só me resta rir desse movimento que divulga e escreve sobre as Marchas contra a Corrupção e as denomina como movimento de mauricinhos e patricinhas sem foco e sem conteúdo!!!!

Como assim, basicamente? Explique melhor, porque não estou entendendo. O movimento perde valor porque leva às ruas jovens que estudam em escolas particulares e que tem acesso a condições melhores de vida? Como assim? Basicamente?

Agora, é preciso ser desempregado, sem terra, sem teto e sem alguma coisa para protestar? Pois bem, participei das Marcha contra a Corrupção neste feriado e me acho perfeitamente habilitada a falar e me indignar com essa M... toda “que já vem malhada antes de eu nascer”, como diria o poeta Cazuza.

A questão aqui, caso ainda não tenham percebido os ‘bonitos’ que falam da falta de foco do movimento, é que todo e qualquer brasileiro que paga suas contas, paga os impostos (altíssimos), rala diariamente para dar conta desse absurdo que é a nossa carga tributária e, fundamental, É HONESTO, tem todo o direito de ir para frente das casas legislativas e protestar contra essa corja.


Meus filhos foram.
Eu me deito toda noite e só não durmo tranquilamente porque o alto custo de ser classe média nesse país me perturba. Mas, no quesito ‘sono dos justos’, eu posso me declarar tranqüila. Não roubei, não desviei dinheiro público, sequer comprei produtos piratas – embora muitas vezes tenha ficado tentada devido aos altos preços dos originais. Mas, nesse caso, prefiro declinar.
Eu fui!
Existe uma propaganda que ‘rola’ no rádio e que acho bem apropriada. Ela fala sobre ser ÉTICO e diz: para ser ético basta dizer não participo, não compartilho não aceito. Pois bem, estou nessa e me considero uma pessoa – embora de classe média e com filhos estudando em escolas particulares – absolutamente apta a protestar e gritar na porta do Congresso Nacional frases como : Sarney safado, fora do senado. Ou, Ordem e progresso dentro do congresso!
Pizza gigante.
Portanto, não venham me dizer que somos patricinhas fora de foco. Eu, na juventude, fui às ruas e também protestei. Na época, eu estava lado a lado com um Partido dos Trabalhadores chamado PT. Coloquei estrelinha no peito e gritei que não concordava com a situação da época.

Pois bem, preciso esclarecer um detalhe: nessa história, não fui eu que mudei de LADO. Think about it!