segunda-feira, 29 de julho de 2013

Bate-papo com o cineasta Sérgio Moriconi, no Sebinho


Seminário Arte em Brasília
No balanço dos 50 anos

      A livraria Sebinho promove bate-papo com Sérgio Moriconi, autor do livro Cinema – Apontamentos para uma história.

Discutir mensalmente um tema sobre a cultura em Brasília. Este é o principal objetivo doSeminário Arte Brasília que o Sebinho realiza, em parceria com o ITS – Instituto Terceiro Setor e com o apoio da Pau-Brasília viveiro ecoloja, desde abril. Os seminários acontecem mensalmente, no Sebinho (406 Norte), das 19h às 21h, com entrada franca e mediação do poeta Nicolas Behr. O próximo tema será o CINEMA, no dia 29 de julho, segunda-feira. E traz Sérgio Moriconi, jornalista, sociólogo, cineasta, professor, crítico de cinema e autor do livro Cinema – Apontamentos para uma históriaeditado pelo Instituto Terceiro Setor, para conversa sobre a história do cinema na Capital Federal, juntamente com um personagem do livro. Os primeiros quarenta inscritos recebem o livro gratuitamente.  O debate será seguido de sessão de autógrafos.
Livro: Cinema – Apontamentos para uma história Pontos de venda: Livraria Dom Quixote (CCBB) ; Livraria Sebinho (406 Norte) e ITS – Instituto Terceiro Setor (SCRN 706/7, Bloco D, Entrada 12 Sala 301 – Ed. Fearab)
Preço médio: R$ 50.

Seminário Arte Brasília – No balanço dos 50 anos Local: Livraria Sebinho (406 Norte).
Data: Segunda-feira (29/07), das 19h às 21h.
Entrada franca
Classificação indicativa livre.

Mais informações pelos telefones:
Telefone: (61) 3447-4444 ou pelo site  www.sebinho.com.br

domingo, 30 de junho de 2013

MENINOS, EU VI

*Eduardo Balduino 
Eu vi, por exemplo, Brasília nascer. Em Goiânia, vi o horror da Ditadura pelos meus olhos ainda de uma criança que não entendia porque o pai, tio, tia, eram presos. Aliás, em Goiânia, foi a primeira vez que vi as pessoas na rua defendendo sua convicção, confrontando caças e tanques em defesa de seu governador. E foi lá, anos depois, que vi o primeiro comício pelas Diretas Já.

Eu vi, em Brasília, a força do sentimento de gratidão quando o povo levou o caixão de JK nos ombros e fez a força militar ainda da Ditadura recuar.

Antes, eu vi, ainda em Goiânia, dois fenômenos que, hoje, poderiam ser criticados pelo viés da estética, mas que mudaram o mundo. Vi, em 68, os jovens parisienses e, em 69, os jovens de Woodstock.

Nossa! Vi, também em Goiânia, Geraldo Vandré cantando, pela última vez no Brasil, “Prá não dizer que falei de flores”. Na verdade, ele não cantou. Fez um show fantástico, para 3 mil pessoas no Cine Teatro Goiânia. No final, sob os pedidos para cantar o hino da resistência à revolução, começou a dizer que estava proibido de cantá-lo, enquanto, no fundo, a banda tocava - e cantamos nós todos a música, guardados por soldados que preenchiam os corredores do teatro. De lá, Vandré foi para o Chile, naquela mesma noite.

Vi, e compreendi, a força da arte nas revoluções. Como nesse show que aconteceu em Brasília, no último dia 29 de junho, em homenagem a Renato Russo.




Vi, nas redes sociais, muita gente criticando o espetáculo, porque um ou outro errou a letra, ou porque Jerry Adriani – que pouca gente hoje sabe quem é – estava lá. Como tentaram ridicularizar Ivete Sangalo chorar sentada no chão do palco.
Respondi, para uma jornalista: vocês estão vendo o show, e eu, o fenômeno.
Meninos, estou vendo agora um movimento de ruptura cultural acontecendo no país e tem gente preocupado com o desafinar de um cantor.
Talvez não tenham notado, no telão de fundo de palco, a bandeira do Brasil tremulando seguidas vezes. Nem percebido o mestre de cerimônias do show pedir – e conseguir – um minuto de silêncio pelos mortos nas manifestações que se multiplicam no país há alguns dias – e que estão mudando o país.



 
Pois, o que eu vi no show transmitido ao vivo de Brasília foi a irreversibilidade desse movimento, que começou com uma reivindicação de tarifas de ônibus mais baratas, e se transformou na mola propulsora de mudança de um ciclo. 
A ponto de os que o iniciaram também não entenderem a sua extensão e se renderem ao seu próprio alvo.A ruptura se dá quando é transformada em sentimento uno. No tributo a Renato Russo, eu vi isso.
Não são os vinte centavos da passagem de ônibus. Não são os estádios erguidos para a Copa.
É o sentimento de mudança que se cristalizou no país.

E, por ele, estamos todos cantando juntos, desafinados, ou não. Mas, todos no mesmo tom: o da mudança. 

*Jornalista

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Anjos não tem idade, anjos são eternos


Dizem que muitos nomes contem o destino das pessoas.
Não é para todo mundo que Deus diz: Vá ser Anjo na vida.
E  mesmo que Deus diga, não são todos os que obedecem a sina de proteger, guardar e se esquecer pelos outros.
Mas há os que levam essa sina a sério e vivem uma vida longa para melhor iluminar o caminho de uma família tão grande como a nossa.



Todos dessa imensa família  Pellicano  somos um pouco irmãos e filhos de Ângelo. 
Todos aqui provaram de sua comida e não se esquecem de seu arroz com chuchu. Da bacalhoada sempre aumentada com pão amanhecido. Nem de sua torta de banana e muito menos de um especial doce de gomos de limões galegos, colhidos no quintal. Ele sempre fez o milagre de esticar o que tinha na dispensa para que ninguém passasse fome. E nunca lhe faltou dinheirinho pra arriscar no jogo do bicho.





Quando a mãe, Venerina,  ficou viúva aos 35 anos, com nove filhos, ele foi precocemente arrimo de família. Cuidou dos irmãos mais novos. Aprendeu a cozinhar, costurar, fazer crochê. Quando jovem, tinha uma legião de amigos. Adorava dançar, pular carnaval, e dizem que também de tomar uns porres de lança-perfume. Não era proibido.

Foi o mais amado dos irmãos, das  irmãs, cunhados, cunhadas. Cuidou dos sobrinhos e sobrinhas  como filhos antes e depois de ter sua própria família com uma das mais lindas  moças de Ouro Fino. Ela também carregou no nome o destino de ser Cirineia e Santa. Cirineia Santa Rigotto.  

Vocês sabem, Cirineu foi aquele bom homem que ajudou Jesus a carregar a cruz até o calvário. Não foi por acaso que uma Cirineia aconteceu na vida de um Anjo. Deus sabia que a tarefa dada a Ângelo Pelicano seria plena de luz, de muitas alegrias, muitos fortes acontecimentos, mas também de muitas perdas e dificuldades. Nunca seria fácil. 

Então, abençoada a família que tem como exemplos, como guias um Anjo e uma Santa. Eles teceram juntos belezas pelos caminhos que trilharam na forma de casas sempre arrumadas e acolhedoras, vestidos de festas, enxovais, ternos,  casacos de frio, peças de crochês e bordados, bolos de casamento e de aniversário. Cuidaram juntos com desvelo de parentes doentes. E há sobrinhos aqui que estão vivos porque, quando desenganados pelos médicos, Ângelo não esmoreceu. Passou a noite velando por eles, quando as mães já não aguentavam de exaustas. 

Celebramos no dia 23 de maio a vida de Ângelo Pelicano, filho, irmão, marido, pai, sogro, tio,padrinho, avô e bisavô; do Ângelo Pelicano amigo querido de tanta gente de Ouro Fino e aqui de Brasília. Dizem que ele completou 90 anos. Mas vocês sabem que Anjo não tem idade. Anjos são eternos. Amém 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A propósito de chuvas temporãs e chuvas serôdias


Por Clara Favilla

Dizem que usamos no máximo 200 palavras pra expressar o que queremos no dia-a-dia. Estamos acostumados a um vocabulário pobre e recorrente. Um  linguajar arroz  com feijão, de tão básico. Como feijão parece que também está saindo de moda,  melhor chamar esse linguajar de  arroz com arroz. E daqueles sem sal, sem salsa ou qualquer especiaria. 

Jornais e revistas, noticiário televisivos, filmes até os de trama mais complexas, sem falar nas peça publicitárias, contribuem para essa nossa pobreza na comunicação oral e até escrita.  Afinal , tudo precisa ser dito o mais rápido possível e com palavras que todo mundo entenda. 

A opção pelo óbvio reduziu muito o que entendíamos por clareza na exposição de ideias. Raro alguém garimpar aquela palavra sonora, bendita, na elaboração de textos de leitura diária e obrigatória. De vez em quando, tropeçamos em cacos, estilhaços dos filões de belezas soterradas. Alguém grita: Eureka! E navegamos pela Grécia Antiga, nas ondas ancestrais da filosofia. È bem verdade que alguns engraçadinhos, envergonhados de tal conhecimento gritam: Corega! Sim, muitas vezes nos nivelamos por baixo para fazer parte do bando. 

Enquanto eu crescia,  gostava de ouvir os antigos da família. Eles não estavam contaminado pelo vocabulário da hora. Uma das minhas avós dizia a palavra alhures com a maior naturalidade. Outra, soltava, aqui e acolá,  um sonoro quiçá. Nenhuma falava lanche, nem lancheira. Mas merenda e merendeira. Rico era nababo. E advogado, rábula. Uma das minha avós falava portuliano como a maioria das avós da minha cidade. Achava simplesmente, quando criança, que elas eram apenas senhoras de um jeito muito próprio de se fazer entender pelos respectivos clãs. 

Avós também escreviam com grafia de outras épocas: ella, pharmácia, cousa.  Já faz algum tempo que o falar e o escrever andam perdendo a identidade geracional. Avós, filhos, netos  e bisnetos falam as mesmas gírias e abreviam palavras ao escrevê-las. As vogais estão desaparecendo. Vejam:  pq, qd.  Beijo no singular é bj. No plural, bjs.  O abraço quase desaparece num mesquinho ab. No plural, abs. 

Algumas consoantes também desaparecem quando escrevemos. A verdade empobreceu e é  apenas vdd. E não culpem o Twitter. Essa redução já vem acontecendo faz tempo. Além disso, qual a parcela da população  é tuiteira? Essas reduções de grafia podem ser comprovadas em bilhetes, cartas manuscritas e em e-mails de gente que nunca tuíta, que nunca manda mensagens de textos via celulares.  Digamos assim, é uma tendência. Textos inteiros começarão a sair  assim com palavras sem vogais e com um mínimo de consoantes.  Quem viver verá. 

Uma boa oportunidade de se ouvir palavras mágicas, plenas de significado é frequentar igrejas. Nas católicas tem as leituras  de passagens bíblicas e a do  Evangelho do dia. Pena que ao comentá-lo o padre de plantão recorra ao vocabulário mais rasteiro. Padres e pastores demolem qualquer vestígios de beleza em seus sermões ao comentar epístolas,  salmos, parábolas. Os Evangelistas certamente tornaram-se cegos e surdos nas Alturas. Mesmo iluminadas em vida pelo Espírito Santo e transformados em plena luz depois da morte, não encontrariam palavras que traduzissem a ira terrível e santa pelo que fizeram  de suas palavras com o passar dos séculos. 

Bem, tudo o que escrevi tem a ver com post aqui neste blog  com o título Sobre indignações cínicas e Serôdias, do amigo Aetano. Confesso que precisei recorrer ao dicionário.  Serôdio do latim serotinus - que age tarde, tardio. Adjetivo. 1. Que vem no fim da estação própria. 2. Que aparece ou acontece fora do tempo considerado próprio. 3. (Figurado) Que já se sabe há muito tempo, equivalente a antigo, velho. 

Não sei se a formação em Direito de Aetano é a causa dele nos brindar com tais pérolas. Pode ser o tipo de leituras que faz. Só sei que fico feliz quando preciso recorrer ao dicionário. Nem tudo está perdido. Há ainda pessoas neste mundo, dessas perto de nós,  que não se contentam com o linguajar da hora. Que usam natural e devidamente palavras cheias de conteúdo, ainda não desgastadas. Palavras  que reluzem feito jóias raras quando resgatadas da obscuridade ou de nichos nem sempre acessados. E nos fazem lembrar de chuvas temporãs e chuvas serôdias e o conteúdo místico que as envolvem desde o cerne. 





domingo, 28 de abril de 2013

Crônica de uma noite de outono

Por Cris Lopes

Sou da noite, não da farra noturna, gosto do silêncio de casa. Pessoas dormindo, um ressonar aqui e ali, um bom livro e um copo d'água ao meu lado. Tem coisa melhor? É hora de pensar, organizar os pensamentos e depois dormir o sono dos justos. Tenho feito muito isso. É a hora da meditação, de encontrar o centro, o tão desejado equilíbrio.

Para outras coisas gosto do dia. Adoro sol, mas não me entendo bem com o calor, daí minha predileção pelo mês de maio, nem oito nem oitenta. Perfeito. Sinceramente, mesmo sabendo da necessidade, não gosto de chuva, mas quando ela cai depois de muitos dias desaparecida e vem aquele cheiro forte de terra molhada, eu amo. Amor fugaz.

É bom acordar em um dia fresquinho, abrir a janela, respirar profundamente e ver o mar, as montanhas e muitas gaivotas. Algumas vezes urubus se intrometem no meio delas e mesmo sendo um bicho horrível, voando é maravilhoso como se fosse garça. A vida é assim, plena de contrastes.

Penso em mim e dou um rápido passeio no passado. Percorro meu itinerário de vida, alterado várias vezes por mudanças intempestivas. Cai, levantei, cai de novo, encontrei o amor pleno da maternidade e que maravilha! Fui avó de um lindo menino loirinho com cara de anjo e que hoje é um adolescente saudável. Dádiva, só pode ser. Amei, fui amada, encontrei o amor que eu queria e digo com sinceridade, sou feliz. Não tenho mais desejos supérfluos, encontrei, no meio de dores e alegrias o que acho ser meu equilíbrio. Enlouqueci? Talvez, mas ganhei sabedoria, muito menos do que gostaria.

Como todos, também adoeci, curei-me, adoeci de novo e vou levando a vida sorrindo na certeza de que nada nos acontece por acaso. Fatalista? Quem sabe. Mulher de fé, sou. Fé em tudo: Deus, pessoas, natureza, mundo...sou daquelas que acredita que o meu país melhorou e nem gosto de me lembrar da palavra ditadura; é como se fosse um cancro cravado na alma, daqueles que médicos e remédios não curam.

Quando jovem era uma espoleta. Quanto mais coisas melhor. Foi divertido, mas passou. Amadureci, descobri a paz de estar em casa, a alegria d presença dos filhos, do neto, dos amigos, tudo assim calmo, um pouco de cada vez, pois sou inimiga do estresse que conheci tão bem. Depressão? Nunca mais ela me pega e só me pegou, juntamente com uma síndrome do pânico, porque eu estava desprevenida e pensando que o trabalho era a coisa mais importante do mundo. Passei um tempão sem parar para ver os pássaros, aprender a tirar uma abelha da casa sem machucá-la e muito menos matar, coisa simples que não ia e resolvia logo com uma chinelada sem pensar na importância do animalzinho.
Estou longe da perfeição, e o pavor de baratas adquirido na casa de uma de minhas avós? esse irá comigo até a eternidade, mas como tenho sorte, nunca vi uma em minha casa e nem escutei o som bem baixinho (tsc, tsc) que elas fazem quando correm ou se preparam par o voo.

Pois então, mais uma das minhas estórias em uma noite de outono. Fica o registro.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

No meio do caminho desta vida, me vi perdido numa selva escura

Nesta sexta-feira, 26, realmente me surpreendi.
Logo depois da abertura  , simplesmente genial, da série Mad Men , no primeiro episódio da sexta temporada, me aparece Don Draper em férias com a nova namorada, numa praia do Havaí, com Divina Comédia, de  Dante Alighieri , em mãos.

É claro, lia o  Canto I, um dos mais conhecidos.  Versos que definem a temporada que traz Don, na encruzilhada da meia idade, repensando o já vivido e principalmente seus erros.
Há uma infinidade de traduções para a Divina Comédia, principalmente deste Canto I, mas optei por transcrever aqui a de Augusto Campos: 


O Paraíso , Ilustração de Sandro Botticelli para a Divina Comédia 

"No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída
Ah, como armar no ar uma figura
dessa selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?
É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que eu encontrei,
outros dados darei da minha sorte.
Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.
Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,
e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia
Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;
e como o náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,
o meu ânimo, ainda fugitivo,
voltou a contemplar aquele espaço
que nunca ultrapassou um homem vivo."

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Felicidade Clandestina


Clarice Lispector 

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era da paisagem do Recife mesmo, onde morávamos , com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".


Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía «As reinações de Narizinho», de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima das minhas posses. 

Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até ao dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas do Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder; que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama "dia seguinte" com ela ia se repetir no meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o facto de não estar entendendo.Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era essa descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar a casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardava o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar...Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Texto postado no Facebook por Ana Sofia Melo

terça-feira, 23 de abril de 2013

Desilusão de janelas trancadas

Por Clara Favilla

Voo Santiago/São Paulo. Novembro de 1997. Manhã ensolarada. De novo sobre o mar dos Andes. O piloto avisa que o mais alto de seus picos, o Aconcágua, está ali, bem a nossa esquerda. O avião parece voar tão baixo e, como criança, penso poder tocá-lo só com um esticar de braços. Parece que nem se foi, faz tempo, o tempo de se querer uma escada bem alta para subir aos céus.

Foto do autor 

Lamento que o filme na minha máquina estivesse no fim e, prontamente, um passageiro gaúcho me presenteia um. O que lemos sobre os Andes não nos prepara para o assombro de sobrevoá-lo assim tão perto, o assombro de ver infinitos picos em série desafiando nuvens translúcidas.


Imediatamente, o que vemos nos permite incorporar o apenas sabido abstratamente: a Cordilheira é um longuíssimo sistema contínuo de montanhas ao longo da costa ocidental da América do Sul. É como se víssemos por um espelho imagens e cores se multiplicando infinitamente. Queremos atravessar o espelho e agarrar com as próprias mãos esse mistério grandioso. Não há medo. Só a desilusão de janelas trancadas.
Os Andes tem 8 mil km de extensão, a mesma do litoral brasileiro. É a maior cadeia de montanhas do mundo em comprimento, e em seus trechos mais largos chegam a 160 km do extremo leste ao oeste. Sua altitude média é de 4 mil metros e seu ponto culminante é o pico do Aconcágua com 6962 metros, na Argentina.
Os Andes se estendem desde a Venezuela até à Patagônia. Fazem parte da paisagem do Chile, Argentina, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela. Na Colômbia e Venezuela ramificam-se e prolongam-se até quase tocar o Mar do Caribe. Em sua parte meridional servem de longa fronteira natural entre Chile e Argentina.
Na zona central, os Andes se alargam dando lugar a um planalto elevado, o Altiplano, partilhado pelo Peru, Bolívia e Chile. A cordilheira volta a estreitar-se no norte do Peru e se alarga novamente na Colômbia para estreitar-se e dividir-se ao entrar na Venezuela. Os Andes não separam, integram.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Bicho arisco


por Clara Favilla 
Coisa que não se deve procurar é o Amor. Quando mais se procura mais ele foge. Bicho arisco. Amor é cavalo selvagem sem sela, a galope. Os corajosos, como nos filmes de bandidos e mocinhos de antigamente, pulam sobre suas ancas e agarram-se como podem às suas crinas. E é preciso agarrá-las com força emprestada dos deuses para não acabar derrubado e afogado em mares de cascalho, lama,  poeira, ou tragado por abissais precipícios.
Está sempre de passagem e com pressa. O amor que se procura e se encontra é enganoso. Nunca é o que deve ser, como deve ser. Nunca tem o gosto, a temperatura, a textura que dele se espera. E se aparece como sonhamos é miragem. Pode-se acreditar na miragem. Há quem goste de se enganar, de se trair. 

É o amor que nos acha. É preciso reconhece-lo na forma que chega, no instante que chega. Caso contrário, perdição pura. É um raio. Se os olhos estão fechados, só se sabe do trovão. 
Amor não é da família dos elfos. Se tem a boca carnuda, os olhos são mínimos. Se os olhos faíscam, o nariz é adunco. Se é alto, desengonçado. Se faz graça é porque é triste. E se é triste, tem um menino que brinca dentro dele. Nunca está à disposição. Nunca é pra sempre. Vai embora, mesmo quando não quer. Atrevido, caprichoso, domina quando olha de lado, não quando olha nos olhos. Não aceita açoites. Nem grilhões. Também de nada adianta paparicos. O Amor pode até comer na tua mão. Mas não agradece e a tua cama nunca é a definitiva.
Somos fascinados por sorrisos, tons de vozes antigas. Por aconchegos que fantasiamos. Mas o Amor não é feito de doces suspiros. É feito de sangue, suor e lágrimas. Amor é terra de ninguém. É deserto escaldante, é geleira. Nunca Jardim do Éden.

domingo, 21 de abril de 2013

Silêncio que sustenta o mundo


Por Clara Favilla 
No campo de concentração de minha infância tem um jardim, um pássaro que me visita e um sapo que me conta histórias. 
Durmo em travesseiros de ervas perfumadas e retratos dos mortos da família velam meu sono. 
Uma mulher senta-se aos pés de minha cama e me protege, à noite, dos torturadores, num embalo de que é a vida é assim. É assim. Assim mesmo.
A lua entra pela janela entreaberta e anjos me visitam. 
O vento sussurra histórias de Mil e Uma Noites, Tesouro da Juventude, verbetes da Enciclopédia Britânica. 
Histórias celestes, humanas, minerais, histórias animais e vegetais que alimentam e fazem crescer meu amor sem medidas por mapas, rios, mares, florestas, cidades, montanhas desenhadas em papel; pelos astros, paisagens longínquas.
Meu amor pelo silêncio que sustenta o mundo e que o coração reconhece e chama de eterno. 

sábado, 20 de abril de 2013

Pontes bêbadas sobre abismos


Por Clara Favilla
A coruja procura abrigo. As unhas do sol já rasgam a noite. Difícil a tarefa de se atrasar a manhã. Atravessamos de mãos dadas o Mojave. Nos reconhecemos em fantasmas dos que já se foram. Guardamos acalantos para que adormeçam em paz. Olha só! Bem ali: um catavento abandonado, um carro enferrujado, um coração despedaçado, um cacto florido e é de manhã!
Gastamos a madrugada a juntar pedrinhas coloridas do que chamamos nossas vidas. Vestígios do que fomos, de possibilidades arruinadas jaziam espalhados, opacos no limbo da falta de lembrança. Resplandeceram, então, de repente, num mosaico perfeitamente decifrável.
Estamos aqui de passagem e a leve túnica da esperança nos cobre. O cajado da amizade impede nossa queda irremediável. Pão, frutas secas, água e a sombra de misteriosos oásis nos permitem a travessia. Seguíamos a caravana e nosso coração alcançou, de repente, a estrela daquela manhã. É por manhãs assim de fugidia plenitude que respiramos.
Mais fantasmas nos visitam nessa viagem: ali nosso pai, ali amigos. Mais adiante, todos os amores que foram ou poderiam ter sido e mais os poemas esquecidos.
Virgílio nos guia. 
O inferno se afasta de nós e nem buscávamos o Paraíso, nem qualquer porta para bater ou que estivesse aberta. Nem qualquer abrigo de camas de feno ou manjedouras. Nem mesmo o calor de animais amigos. Nem vales verdejantes, nem colinas azuis distantes.
Amamos a secura do deserto. O frio e o orvalho da noite, nossos salvadores. Palavra por palavra construímos pontes bêbadas sobre abismos. O fio do medo nos sustenta, dele nasce nossa coragem.
O deserto é fértil: guarda sementes milenares e, quando a névoa úmida baixa, explode em cor, feito milagre. A amiga é decifradora dos segredos das pedras, de sinais de fumaça. O amigo sabe flutuar sobre nuvens carregadas. Eu pergunto e aprendo.
É por ali, diz a amiga e segue a direção dos cactos. É por ali, diz o amigo e segue a direção da impossível chuva. É por ali e por ali, me dizem o amigo e a amiga e sigo a direção do vento. É por ali, por ali e por ali também. É lá, não tão perto e nem tão longe. É lá muito, muito longe. Nos reencontraremos, certamente. Qualquer noite dessas veremos de novo, juntos, as unhas do sol rasgarem a manhã.


terça-feira, 16 de abril de 2013

Jornais mudam para ganhar leitores. O que ganham sendo não jornais?

Renato Janine Ribeiro é  professor-titular da cadeira de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Escreve no Valor Econômico. 
Faz tempo que os jornais procuram conquistar um público que não gosta de jornais. Quando o Estadão diz, ontem, que os leitores querem "mais conveniência e eficiência de leitura, um jornal mais compacto", está dizendo, com muita tristeza no coração mas evitando mostrá-la, que os leitores querem um jornal menos jornal.

 Quando a "Folha" faz, cada poucos anos, uma mudança gráfica que torna o jornal de mais fácil leitura, reduzindo o tamanho dos parágrafos e aumento o tamanho das fontes, chegando a permitir que na Ilustríssima o espaço branco predomine sobre o escrito, está procurando ganhar os leitores que não gostam de jornal. E ainda diz que a mudança é para melhor, é gloriosa etc. 


Sempre senti que seria como eu, professor, me gabar de dar aulas mais curtas, com menos conteúdo, falando mais devagar, usando menos palavras.A pergunta é parecida para jornais e professores: dá para manter sua share na imprensa, se vc não acredita que seu produto é bom, bom demais?


Dá para apostar na mídia impressa quando ela mesma se disfarça em não-impressa, reduz as palavras, acelera as coisas, querendo conquistar um leitorado que não é o dela? Não percebem que dizer - implicitamente que seja - que o produto não é bom, que precisa ser disfarçado, é a pior estratégia para conquistar quem já nao aprecia - ou nem quer conhecer - o produto?

Isto é muito parecido com algo que acontece na educação.
Para conquistar alunos dispersos, quantos não buscam recursos que não são os da educação? Se se vai falar em personagens admiráveis, recorre-se ao ídolo do momento, até mesmo um Neimar. Fica tão claro que o professor não tem coragem de dar, como modelo, um escritor, um artista, um cientista. Fica tão claro que se tenta entrar na festa pelos cantos, envergonhado.
Muito em tese, penso que nem os jornais ganham se fingindo de não-jornais, nem ganha a educação quando o educador disfarça o que ela é.


Reprodução de comentário de Janine do FaceBook.
Para ler as colunas de Janine no Valor Econômico clique AQUI

sábado, 13 de abril de 2013

Uma aula sobre burca

O filósofo e poeta Antonio Cícero deu  interessante, esclarecedora e longa  entrevista exclusiva a Aetano Lima. O Café & Veneno pede licença ao autor  para  publicar alguns trechos. O intuito é realça-los e facilitar a leitura.  Leia a íntegra da intrevista com um clique AQUI.

Mulheres ditas informadas que optam pelo uso da burca deveriam renunciar a qualquer vida – ou pronunciamento – público.

Antonio Cícero
A burca faz parte de um sistema cultural. Assim, entre os talibãs, que estão entre seus principais defensores, por exemplo, as mulheres não são apenas obrigadas a usar a burca, mas são também destituídas de autorização para trabalhar fora, proibidas de se escolarizarem depois de oito anos de idade e, até então, obrigadas a não estudar senão o Alcorão; caso violem as leis talibãs, estão sujeitas a serem publicamente açoitadas.
Creio haver basicamente cinco tipos de mulheres que usam a burca.

O primeiro é o das mulheres que são simplesmente obrigadas a fazê-lo pelas suas famílias.
O segundo é o das mulheres que acham natural serem submetidas a semelhante sistema cultural. Foram convencidas disso exatamente por ignorância: por nada terem aprendido, fora técnicas domésticas e preconceitos de origem religiosa e cultural. Não conhecendo alternativas, é por ausência de liberdade, não por liberdade, que elas querem usar a burca.
O terceiro, que em grande parte coincide com o segundo, é o das mulheres que optam pela escravidão ou pela eterna minoridade, de modo a escapar das responsabilidades que advêm da liberdade.
O quarto é o das mulheres que, jamais tendo sido obrigadas a usar a burca, decidem fazê-lo para afirmar sua identidade cultural e religiosa islâmica. Isso ocorre principalmente entre mulheres muçulmanas que vivem no Ocidente, inclusive entre mulheres que, não tendo origem muçulmana, converteram-se ao islã. A maior parte das fundamentalistas é composta de tais mulheres.
O quinto é o das mulheres que usam a burca idiossincraticamente, sem terem nenhum compromisso cultural com o que ela representa, por mero capricho ou moda.
Veja bem: penso ser evidente que a imensa maioria das mulheres que usam a burca pertence ao primeiro, ao segundo e ao terceiro grupo. São as mulheres que por diferentes razões são, voluntária ou involuntariamente, escravizadas pelos seus pais, irmãos e/ou maridos.
A função da proibição da burca é fazer com que, por motivos práticos, (1) os maridos dessas mulheres deixem de impor seu uso a elas; (2) essas mulheres mesmas deixem de considerar natural o uso da burca, e, consequentemente, sejam capazes de abandoná-la, (3) fazer com que cada uma delas assuma uma personalidade pública, inclusive as responsabilidades e liberdades que fazem parte de tal personalidade.
É verdade que a proibição significa também impedir o exercício da liberdade de usar a burca pelas mulheres do quarto e do quinto grupo. Entretanto, não só elas são muito poucas, em comparação com as dos primeiros grupos, como, no que toca às do quarto grupo, há algo de espúrio em sua adoção da burca. Por que? Porque, segundo a formulação usada por você, trata-se de mulheres que decidiram fazê-lo “de modo livre e informado”. Nesse caso, elas devem saber que a burca faz parte do sistema cultural que descrevi acima: e que, segundo esse sistema, as mulheres não devem ser livres nem informadas. Se quisessem realmente afirmar a identidade cultural e religiosa islâmica, deveriam também, abandonando seus empregos, já que são mulheres, encerrarem-se no lar, deveriam se restringir a ler o Alcorão, deveriam apoiar a adoção da “lei islâmica” ou charia (que despreza os direitos humanos) e deveriam renunciar a qualquer vida – ou pronunciamento – público.
Quanto ao quinto grupo, que usa a burca por mero capricho ou moda, penso que a perda de liberdade que sofrem ao ter que abdicar do seu uso não é nem de longe comparável com a escravidão sofrida pelas mulheres que são obrigadas a usar a burca.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sobre indignações cínicas e serôdias

 Por Aetano Lima


1. Um dia antes do artigo do Vladimir Safatle (Folha de 02/04/2012), eu escrevi no Twitter: Marco Feliciano é um marco - um marco do avanço do fideísmo.

2. Por que o fideísmo avança? Onde ele avança? A resposta a estas questões aponta para uma omissão gravíssima.

3. Temos quase VINTE ANOS de social-democracia no poder e nenhuma mudança significativa em termos educacionais. Como o fideísmo alimenta-se também de ignorância, uma parte dos frutos que estamos colhendo agora é decorrência dessa grave negligência.

4. Não bastasse isso, PT e PSDB passaram, cada um a seu modo, a dar cada vez mais espaço à bancada fideísta (católica ou evangélica), já que eram seus devedores. Com efeito, na busca desesperada por votos, aqueles partidos, durante as últimas eleições, deram-se à lavagem de pés de padres e pastores e, como incoerência nunca foi um problema para eles, adotaram a retórica fideísta, em detrimento de suas bandeiras históricas.

5. Agora os tentáculos do fideísmo começam a incomodar, e os intelectuais - que aqui na nossa terrinha só preveem o passado - despertaram para esse risco, mas, estranhamente, com uma certa resignação.

6. Pois bem, na próxima eleição, o jogo repetir-se-á, a bancada da fé vai aumentar e a ameaça de retrocesso idem. Preparem seus ouvidos para as indignações cínicas e serôdias.

Aetano @Aetano " Um anarquista bem-comportado." É graduado em Odontologia e Direito.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Canção do Amor Tranquilo


Canção do Amor Tranquilo

Encosto o meu rosto
No teu ombro moreno
Imensa é a solidão
Mas o mundo é pequeno
Por acaso encontrei
Mesmo em Roma ou Paris
Amigos do Brasil
Só não achei quem quis
A alma desejada
Em perfeita constância
Em anos solitários
Obsessão da infância
Aceito o destino sem queixas
Estou sereno
Encosto o meu rosto
No teu ombro moreno

Na tarde do dia 15 de outubro de 2007, perdemos um mestre de excepcional valor: o poeta, crítico literário, dramaturgo, jornalísta e professor Cassiano Nunes
"Quando pisou no aeroporto do Galeão (RJ) – vindo de Nova York –, Cassiano Nunes Botica voltava ao Brasil depois de cerca de quatro anos de estudos na Alemanha e nos Estados Unidos. Não fazia idéia de onde trabalharia. Largou o emprego de professor de literatura brasileira na Universidade de Nova York para retornar ao país natal. Ao longe, avistou o amigo que entrelaçaria sua história à de Brasília. O senhor magro, calvo, de óculos era o poeta Carlos Drummond de Andrade. Ao escutar o pedido do amigo por um emprego, Drummond pediu calma. Duas semanas depois, o escritor mineiro o indicaria para lecionar na Universidade de Brasília (UnB), no Instituto de Letras (IL). Era 1966 e Cassiano permaneceria na instituição até 1991. Passados 38 anos, o jornal UnB Notícias homenageia, na série Personalidade, o poeta, crítico, professor, ensaísta e Doutor Honoris Causa (título concedido em 2002). Ou como ele mesmo se chama – o "velho cão" do Cerrado.

Em Brasília, além da própria produção literária, Cassiano Nunes – formado em Letras Anglo-Germânicas e Contabilidade (por pressão do pai) – é referência na formação de vários poetas, entre eles João Carlos Taveira, Climério Ferreira e Gustavo Dourado. Pela contribuição para a cidade, tornou-se cidadão honorário de Brasília em 2001. "Ele sempre nos promoveu e chegou a montar exposição em Paris só com poetas brasilienses", afirma o poeta e jornalista Guido Heleno, ex-aluno de Cassiano.

Um dos maiores estudiosos da vida e da obra do escritor Monteiro Lobato, Cassiano Nunes vive em meio à biblioteca que ocupa grande parte de sua casa na 711 Sul, em Brasília. Amigo de Mário e Oswald de Andrade, Antônio Cândido e Patrícia Galvão (Pagu), ele só começou a escrever poesias depois dos 40 anos – até 2002, publicou 63 obras, entre poesias, ensaios, artigos e críticas. No último dia 4 de maio, lançou sua mais recente obra: Literatura e Vida, uma coletânea de artigos.

http://www.gustavodourado.com.br/cassiano2.jpg

Amiga de longa data, a professora da UnB Maria Jesus Evangelista, conhecida como Majú, revela como é o processo criativo de Cassiano: "Ele não faz sequer correções nos versos. A inspiração vem e o poema já sai com a cara dele". Sua poesia é adepta do estilo livre, com ritmo simples parecido com o de Manuel Bandeira. Modernista e contemporâneo, segundo Majú, seus poemas apresentam incursões pelo simbolismo impressionista. "É lírica, mas não piegas. Ele é um virtuose do verbo livre", detalha.

Fonte: Revista da UnB.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cleusinha, fim de semana com Deus e o mundo, menos com quem ela quis

Cleusinha não gosta de passar recibo. Quando acorda triste, nada de sair de qualquer jeito. Banho demorado, perfume e café forte fazem parte de sua receita pra não sair trôpega de casa. Chefe nenhum quer, logo de manhã, nas reuniões de pauta,  zumbi, mulambo, gente de olheira sem ter lido os jornais e revistas de fim de semana.

Não é repórter, é uma faz-tudo na redação. Tipo secretária de luxo, assessora para assuntos profissionais, pessoais e aleatórios. Fala inglês, arranha francês e tem um portunhol muito eloquente que está aprumando com a cubana que começou esses dias a trabalhar na sucursal de Brasília.

Participa das reuniões de pauta, anota tudo e até dá palpites. Quando alguém quer medir a temperatura de determinado fato chama a Cleusinha. Ela comenta as roupas da Dilma, sabe que a rainha da Inglaterra foi internada com problemas estomacais, quem tá saindo com quem. Já nos primeiros capítulos diz se uma novela emplaca ou não. E avalia como ninguém os programas eleitorais. Se você não sabe, já leu muitas colunas reproduzindo comentários inteiros da Cleusinha sobre política e economia. Ela é a voz do povo que refresca certezas enferrujadas e coloca por terra, muitas vezes, trabalho de um dia ouvindo especialistas, 

Cleusinha é a memória da redação e principalmente do chefe por quem tem devoção. Sabe a senha dele no banco. Faz retiradas no caixa automático, faz pagamentos e depois dessas saídas é capaz de chegar com uma gravata nova pra ele. Bem mais bonita do que a jararaca da mulher comprou na Itália. E diz isso bem alto pra quem quiser ouvir, inclusive o chefe. 

Sabe nada de vinho. Mas o chefe só compra o que ela degusta e aprova.A boca da  Cleusinha nasceu pras delícias dessa vida. E vai logo desfilando características que deixam os entendidos de cabelos em pé e mudos. "Este vinho compra não chefe, dá  um travo no céu da boca e desce pesado. É daqueles que dão dor de cabeça. Este outro só é bom pra quem gosta de cravo, canela. E este tá parecendo a cidra que minha mãe compra pra fazer ponche" 

Mas vou parar de descrever a Cleusinha e ir ao que interessa. A fofa chegou, pela manhã, à  redação, de cara boa como sempre, mas meio borocoxô. Não trouxe pão-de-queijo pra ninguém e o pior, começou  cantarolar música da tia Rita Lee : "Kiss me baby, kiss me baby, kiss me/ Pena que você não me kiss/Não me suicidei por um triz/ Ai de mim que sou assim!" Um dos fotógrafos gritou lá do fundo redação: " Ai, ai, Cleusinha, desembucha. Diz aí o que não deu certo no fim de semana". E dela ouviu um sonoro: "Vai te catar cara!" 

 Ihhhhhh, melhor não cutucar a onça com vara curta!

Depois da reunião de pauta, com o dia já encaminhado, pausa para um café. Cleusinha chega ,me dá um beijinho na orelha e suspira. Fico logo sabendo que no fim de semana  ela encontrou Deus e o mundo. Só não encontrou quem quis. Faz uma carinha de conformação e vai cuidar da vida que não é de ficar pensando na morte da bezerra. Sai de fininho pra encurtar a conversa. 

E eu, ali esvaziando devagarinho a Xícara de café,  me lembro do poema do querido professor Cassiano Nunes: Por acaso encontrei / Mesmo em Roma ou Paris/ Amigos do Brasil / Só não achei quem quis / A alma desejada / Em perfeita constância / Em anos solitários/ Obsessão da infância / Aceito meu destino sem queixas / Estou sereno / Encosto o meu rosto / No teu ombro moreno / Imensa é a solidão / Mas o mundo é pequeno."

Essa Cleusinha é mesmo da pá virada. Me faz rir, me faz chorar. 

Mal me recupero dos versos de Cassiano e a danadinha passa por mim de novo e de novo cantarolando tia Rita Lee: "Quando eu me sinto um pouco rejeitada/ Me dá um nó na garganta / Choro até secar a alma de toda mágoa / Depois eu passo pra outra/ Como mutante/ No fundo sempre sozinho/ Seguindo o meu caminho/ Ai de mim que sou romântica!".

Faz uma paradinha e diz que vai dar uma fugida. Acabou de quebrar duas unhas. E a amiga da copa, dublê de manicure, lhe dará atendimento de urgência, na sala ao lado.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Cleusinha - Nem aí para a sucessão papal

Por Clara Favilla

Cleusinha tá nem aí para a sucessão papal. Nem acha nem desacha se o Sumo Pontífice (gosta de se referir a ele assim) deveria ter renunciado ou não. Cada um sabe de si é seu ditado preferido. Não julga e não quer ser julgada. Não digo que tem a inocência das crianças como se costuma dizer, mas tem uma delicadeza desconcertante até quando fala alto ou gargalha.

As amigas dizem que ela precisa dar um trato no cabelo, mas ela gosta deles assim, sempre em briga com o vento, com a chuva, com o tempo seco de Brasília, com o travesseiro. Cleusinha começou três faculdades e abandonou todas: por falta de paciência, de dinheiro ou tédio. Nem tem 30 anos. Aos 25 já havia largado e sido largada pelo marido. Diz que graças a Deus ainda não teve filho. Graças a Deus e à sorte porque pelo jeito que fala nem sei se teve ou tem os cuidados que lhe garantam nenhum bebê à vista agarrado-lhe às pernas.

Gárgula, Notre Dame - Foto de Michael Reeve , Wikipédia Commons

Diz que tem saudades do ex-marido, mas não de ter sido casada. Ele queria refiná-la: que rebolasse menos quando dançasse, que falasse menos, risse menos quando estivesse entre homens. Fosse menos debochada, insolente. Quando toca no assunto, não demora a se exasperar. Começa falando baixo, mas de repente puxa e repuxa nervosa as pontas dos cabelo, olha pro teto até que explode num: "Porra, não sei o que ele queria de mim. Se me queria de outro jeito porque se casou comigo?"

De tanto o marido querer reformá-la, ajustá-la ao próprio figurino e o da família, Cleusinha começou também a construir implicâncias contra ele por isso e por aquilo. Precisa levantar tão cedo, tomar banho de mais de meia hora, querer tanto café e sempre passado de novo quando está em casa?  E pra que tantos livros, revistas e jornais?

O marido inventou  férias em Paris e Roma. Trouxe-lhe guias e dicas de amigos para ela saber onde estava pisando e ele não ter que ficar lhe explicando tudo o tempo todo.  Ela não leu nenhum e fingiu de morta quando ele lhe repassava irritado alguma malditas pendantes dicas. Mas foi ela que teve paciência de ficar na Notre Dame até que os olhos se acostumassem com a falta de claridade. Até que alma voasse por cima das centenas de cabeças de turistas e alcançasse as cores dos vitrais mais altos. Foi ela que subiu centenas de degraus para ver o que poderia ver lá de cima e ficou sabendo tudo sobre gárgulas e o passado escondido sobre a base da catedral.

Cleusinha é sortuda. Gosta, como eu já disse, de aprender de ouvido, desde que possa decidir quando e sobre o que prestar atenção. Não é que encontrou lá em cima um casal brasileiro muito simpático que lhe explicou tudinho o que queria e o que nem queria saber? E ainda lhe convidou pra almoçar, o que ela polidamente recusou porque, embora não pareça, é bem tímida.  Depois de um passeio pelas jardins da catedral sem entender porque ela é muito mais bonita de costas que de frente,  procurou e não encontrou o marido que havia visto pela última vez... quando mesmo?

Entraram, sim,  juntos na catedral e  ele, logo em seguida,  irritado por alguma coisa que ela nem captou direito, distanciou-se dela até desaparecer na penumbra. Ela achou que se andasse pra frente, se fosse até o altar, se subisse as escadas até o campanário, acabaria por encontrá-lo. Não só não o encontrou, como até se esqueceu dele alguns minutos depois. Havia entrado naquele estado, velho conhecido seu, de maravilhamento total.

Ao chegar bem perto da Madona de Paris fez os três pedidos de praxe, quando se entra pela primeira vez em uma igreja. No caso dela, é sempre um que repete três vezes: saúde, saúde e saúde. Agora estava ali, sozinha, sem saber pra onde ir.  Fechou os olhos para pensar um pouco antes de decidir  e ao abri-los lá estava o casal fofinho recém conhecido, de bobeira,  conferindo a paisagem refletida no Sena. Como recusar de novo o convite para almoçar?  O marido certamente não se deu ao trabalho de procurá-la por muito tempo. Sempre optava pelo óbvio, pelo mais fácil. Já deveria estar no hotel. Então, que a esperasse.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Cleusinha e Jorjão, feitos um para o outro

Por Clara Favilla

Quando a campainha da porta da frente tocou, ela estava completamente desprevenida: de meias porque tem pés frios, só de calcinha e uma camiseta desbeiçada. Cabelos que nem ninho de gatos. Não tinha tirado muito bem a maquiagem da noite anterior. Olheiras. Havia escovado os dentes? Não se lembrava. Havia acordado no maior bode. 

De novo a campainha estridente. E naquele apartamento ainda não mandara instalar o maldito do olho mágico. Fingiu que não era com ela e foi pra cozinha tomar  um copo d'água. Mas a campainha já disparava novamente. Quem fosse, lá fora, não desistiria fácil. 


Com um fio de voz perguntou quem era. "Sou eu", foi a resposta.
Sou eu quem, perguntou ela, de novo,  já com as mãos suando frio.
Um sonoro porra ecoou pelo corredor.
 _ Porra, sou eu. Não reconhece, minha voz?"

Cleusinha coloca as mãos na cabeça: 

_ Puta que o pariu! O que faz você a essa hora de manhã  na minha porta . Morreu alguém? O que você quer?
_ O que eu quero?  Tem graça uma pergunta dessa?
_ Não vou abrir a porta. Tô descabelada, nem tomei banho, nem café, nem nada... Nem  me lembro do que aconteceu entre a gente na última vez que nos vimos. Nem sei como você chegou até o meu andar se nem a chave da portaria tem.
_  Esqueceu que o prédio tá em reforma? Que a portaria tá aberta? A última vez que nos vimos não foi no século passado, nem no mês passado. Foi ontem à tarde.  E tô me lixando se você se lembra ou não.  Eu me lembro e foi bom. Pra mim e pra você. E quero mais.
_ Cara, vai embora  e avise com pelo menos uma hora de antecedência quando quiser passar por aqui novamente. Não tô a sua disposição.

A vizinha do lado abre a porta. É hora de levar o cachorro cego pra passear. Latidos finos, nervosos.  Cleusinha se afoba. A vizinha não é flor que se cheire. Já implicou de mulher solteira, ela, ter alugado o apartamento ali, parede meia. Que diabo! Se adivinhasse essa aporrinhação teria dado o fora de casa mais cedo. Resolve, enfim, abrir a porta.

_ Já tava contando até três. Ainda bem que abriu, se não abrisse nunca, nunquinha ia mais me ver.
_ E eu tô preocupada com isso? Nem sei se teu nome é mesmo Jorjão, Jorge. Jorjinho. Nem vi tua carteira de identidade. Nem sei teu endereço, se trabalha onde mesmo que diz. Nem com quantas anda.
_ Mulher, corre que tô apressado. Preciso de café e cafuné.
_ Mas do que você, Senhor Encardido, precisa primeiro, indaga com a voz já incapaz de sustentar qualquer braveza.
_  E tem isso de primeiro e segundo? Quero tudo junto.
E Jorjão, o Encardido, dá um tranco por detrás na Cleusinha, a Descabelada. E vão engatados até a cozinha. Ele com a força e ela derretida.