sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um Rio de lágrimas...

por Cris Lopes

Acordei cedo. Assim que abri a cortina do quarto me empolguei com o sol brilhante. Foi abrir a porta e deparar com Carla correndo aos gritos. “D. Cristina, liga a televisão, liga a televisão  agora”. Pensei logo em tragédia. Quando Carla pede para ligar a TV, no mínimo da pena tem o Wagner Montes narrando alguma atrocidade.


                                                            
Sintonizei a Globo News. Nossa! falavam de uma tragédia na zona oeste, mais precisamente em Realengo. Interrompi tudo para ouvir a história do rapaz que entrou num colégio e saiu atirando. Matou 12 crianças, feriu 13.

Entre os mortos, o próprio assassino, que, diziam, levou um tiro na perna e depois se matou. Duvido. Levou foi um tiro mortal muito bem disparado. Num caso assim, que me desculpe a sociedade protetora dos assassinos, eu, se fosse policial, faria exatamente a mesma coisa. O mesmo tiro mortal.

O jovem, chamado Wellington Menezes de Oliveira, 24 anos, foi aluno da escola. Deixou uma carta  incompreensível, dizendo o que todo mundo já sabe, tal a repercussão do atentado no país e no planeta.

Saí para a minha caminhada que precede a fisioterapia do dia. Caminhando e pensando. Uma das crianças, ferida, pulou a janela e, salva por um amigo, foi correndo chamar a polícia. Um pequeno herói, aquele menino que saltou a janela. Qual é o nome dele? Quem é ele, que salvou outros colegas do massacre continuado? Ninguém sabe até agora e poucos falam nele. Garoto de coragem!

Como pode acontecer algo assim em um belíssimo dia de sol e luz, num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza? Por que? Lá vou eu. Sempre estou buscando o por quê da coisa. O que fazia o assassino? Onde morava? A irmã de criação apenas disse que ele era esquisito. Como assim? Esquisito?

Não encontrei resposta e lá fui rumo à Policlínica preparada para a minha tortura física particular. A psicológica eu já havia sofrido com o noticiário, o choro da Carla e os telefonemas para os parentes dela que moram por ali. Imediatamente  lembrei-me que tenho um neto de 12 anos, rapazinho que pega ônibus para ir ao colégio.

E se fosse com o meu neto? Com certeza, eu estaria com os sentimentos embaralhados. Tristeza inconsolável e ódio profundo. Sim, eu não estaria escrevendo sobre isso e muito menos lamentando até pela família do jovem Wellington. Sim, sempre penso na dor dos pais e irmãos de um assassino. Não devem sentir menos do que os pais que perderam os filhos.

Na fisio, enquanto esperava minha vez, o assunto não era outro. Tentei me concentrar no meu livro relaxante, mas ouvia coisas do tipo “a filha da fulana, recepcionista, estuda lá”. Fechei o livro e fiquei ouvindo as conversas entre fisios, enfermeiras e médicos, até que passou a recepcionista, uma bela negra de seus 35 anos, chorando e indo embora. Soube depois que a filha dela não estava entre as vítimas, mas pude sentir o desespero de muitas mães que saíram de seus trabalhos apavoradas em direção ao colégio onde uma barbaridade aconteceu.

 Voltei ao meu livro, a minha dor física e guardei comigo a tristeza de mais uma tragédia na cidade maravilhosa. Mesmo assim, decidi compartilhar com você, aqui, meus sentimentos e preparei este post da rua mesmo, antes de retornar à casa. Assim escrevi este meu primeiro post via Word no celular. Como se fosse emergência de jornal.

18 comentários:

  1. Parabéns Cris, me emocionei com o texto. Aliás a emoção está à flor da pele nestes últimos dias aguçada com esta tragédia em Realengo. É o tipo de situação que faz ou pelo menos deveria fazer a vida parar para uma reflexão. Mas parece que não se para para refletir sobre isso, pelo menos não na medida e na forma que se deveria. Um beijo

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  2. Ana C. Francisco8 de abril de 2011 06:13

    Cris, sempre me emociono com seus textos. Lindo. Não demore muito para escrever de novo.
    Beijos

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  3. Essa tragédia não poderia ter outro nome: Tragédia! Tenho certeza que todos os brasileiros sentiram um aperto no coração com o que viram o dia inteiro pela televisão - e aos cariocas, a possibilidade de ver ao vivo, ter a tragédia à porta de casa, no consultório, o golpe foi mais duro.
    Fiquei com o computador ligado, acomanhando com o coração apertado. Pensei nos meus filhos, que também estavam em uma escola, estudando, aprendendo, preparando seus futuros. Chorei, e assim que pude liguei para ouvir a voz deles. Machucada junto com todos os brasileiros, na primeira oportunidade, abracei meus filhos e senti uma enorme trizteza pelas mães, pais e parentes que não puderam fazer isso ontem numa rua da zona oeste do Rio, num dia de sol, numa manhã de estudo. Uma vó disse:
    - ela saiu cedo, pediu a benção e foi embora. Não voltou mais.
    silêncio.
    Cris, seu texto reflete esse alvoroço na vida das pessoas e o silêncio de uma neta que não vai mais voltar para casa.
    O Brasil de Luto.
    ///~..~\\\

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  4. Que o texto comove, comove mesmo. Mas que texto é esse? Um simples narrar instântaneo de uma tragédia que repercute sensivelmente em pessoas em volta da autora e no íntimo da própria?
    Sim, um simples narrar de sentimentos inesperados num texto que corre solto porque brota à medida em que autora respira e contempla o muundo à sua volta. Por isso, comove ao brotar intensa e sucessivamente, sob a melhor redação.
    Mas é preciso atentar também para um fato que talvez seja inédito na trajetória deste blog - atrevo-me a registrar, embora conheça Café & Veneno de uns dois meses para cá.
    Trata-se de sua produção no ambiente limitado de um telefone celular, enquanto os sentimentos afloram. Aí a instantaneidade que reflete um ambiente conturbado e o encaminha em seguida à editoria. Tudo da rua mesmo, possivelmente.
    Isso é jornalismo emocional envolvido em sociologia emocional. Talvez por isso, por causa desse conjunto de circunstânia emocione mais.
    Enfim, querida Clara, permito-me afirmar que Cris Lopes apresentou-nos uma fórmula editorial, a narração ao sabor dos acontecimentos, que poderia futificar em Café & Veneno para oferecer mais espontaneidade (social, inclusive) ao conteúdo do blog.
    A.C. Scartezini

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  5. Parabéns pela agilidade. É a repórter reportando ao vivo.

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  6. Cris,

    Moro próximo a Escola Municipal Orsina da Fonseca e ontem cedo eu e meu marido comentávamos a mudança de comportamento entre os alunos.Em anos anteriores eram barulhentos e ficavam agredindo uns aos outros.Por vezes meu marido comprava bolas e jogava pela grade para eles no intuito de distraí-los. Depois das UPPS as crianças ficaram mais calmas, brincavam com educação, os meninos se abraçam quando fazem gols. Dá gosto se ver. Ficamos alguns minutos observando as meninas fazendo fila para se arrumarem no retrovisor do carro estacionado no pátio da escola. Saímos da varanda e liguei a televisão e deparei-me com essa tragédia lastimável. Os nossos filhos todos já estão na universidade ,mas somos amantes de crianças e adoramos observá-las mesmo que seja de longe.É gratificante vê-las sorrirem. Agradecemos a Deus e aos governantes pela paz que reina com aquelas crianças.

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  7. Nossa Cris, ficamos todos abalados. Ainda não tinha visto tragédia assim no Brasil. Obrigada por falar do seu sentimento com a notícia.
    Regina Álvares (tentando postar. Vamos ver se acerto)

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  8. Dói na alma tanto luto, tanta tristeza. O Rio não merecia ser palco de tanta dor. Elevo a Deus meus pensamentos e preces a todos os tragicamente envolvidos - as crianças ceifadas de vida, os feridos, suas famílias. Compartilho de seus sentimentos.

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  9. Cris,
    Toda morte gera tristeza. Mas a gente sempre procura alguma beleza no mundo prá se consolar. Morte de crianças ou adolescentes porém é algo que não se acha consolo. É dor sem remédio. Aquelas pessoas inocentes poderiam mudar o destino do Brasil e do mundo.
    Assinado: Itacimirim

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  10. Marianita
    Desculpe chamá-la pelo nick. Foi assim qaue eu tive o prazer de conhecê-la virtualmente e me tornar um admirador pela sua cultura, o que demonstra no texto sobre a tragécia no Rio. Minha opinião curta e grossa: Ainda bem que o "animal" morreu. Caso tivesse sido preso, apareceriam advogados defendendo-o alegando insanidade mental.
    Que Deus tenha piedade de todos envolvidos nessa chacina. Confesso que chorei veladamente em alguns trechos mostrados na TV.
    Amadeu

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  11. Cris, não vou comentar o texto, que é sempre bom. Eu gostei mesmo foi do título: primoroso.

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  12. Como se fosse emergência de jornal...
    Altino

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  13. Cris, se eu tivesse que lhe dar uma nota, seria 10. Você continua escrevendo como antes ou melhor ainda. Todos estão tristes com o que aconteceu no Rio. Espero você em Brasília. Beijão.

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  14. Queridos, preciso esclarecer algo. O maravilhoso título é da Clara Favilla, nossa editora querida.
    Beijos.

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  15. Amor, gostei muito. Beijos,
    Marco

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  16. Achei muito legal a maneira como você narrou a tragédia ocorrida no Rio de Janeiro. Vou seguir o blog.

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  17. Nem tenho palavras para classificar tamanha tristeza...
    Marisa Pinho

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  18. Cris, chorei quando li. Chorei com essa tragédia, chorei com a sua sensibilidade e agilidade. Foi uma reportagem com sentimento. Sentimento de impotência, de dor... Da dor que, infelizmente, ronda esse "Rio de lágrimas". Acho que esse episódio transformou o Brasil em um "País de lágrimas". Impossível conviver com essa realidade. Impossível ver que existem seres humanos (?) se transformando em máquinas de matar. Enfim, não tenho o que dizer. Você disse tudo, no tempo certo. Emergência. É, realmente, uma questão de emergência. Beijos, querida. Obrigada pelo texto comovente e oportuno.

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