terça-feira, 5 de abril de 2011

Memélia Moreira, a amiga que viveu de perto dias escuros e luminosos da História do Brasil

por Clara Favilla

No sábado, 02/04, Memélia amanheceu na minha casa de pijaminha do Garfield. Fofa! Depois de um café e conversa que duraram até a hora do almoço, saímos em busca de algum restaurante que matasse a saudade dela, que há 8 anos, casada com um americano, mora na Califórnia, entre as franjas da Minie, segundo o amigo Ascânio Seleme.

Memélia, filha e sobrinha de jornalistas e políticos maranhenses, personagens da história do Brasil, os Neiva Moreira, pai e tio, a amiga é um compêndio riquíssimo de histórias que ajudam a entender nosso País e nosso povo.

Conversamos, por exemplo, sobre o Panfleto, jornal que apoiava Jango, antes do golpe militar de 1964 e que meu pai esperava chegar nas bancas porque esgotavam-se em segundos normalmente, ou por ação da "direita retrógrada". Foram apenas sete números, durante fevereiro e março daquele fatídico ano, mas o suficiente para marcar o jornal, no qual os Neiva Moreira militavam, em objeto de estudos e teses sobre o movimento que se pretendeu nacional, o Brizolismo.
Memélia mata a saudade do Carpe diem,104 Sul
                                                          
Segundo tese de  Elenice Szatkoski , O panfleto colaborou para a construção do brizolismo, ideologia que se solidificou com a figura carismática de Leonel de Moura Brizola, apresentando um mito que se consagrou como revolucionário, defensor de  um nacionalismo acirrado, opondo-se a qualquer forma de imperialismo dominante, principalmente atacando os Estados Unidos em discursos inflamados.

A análise d o conteúdo das sete edições do Panfleto (não consegui encontrar nenhuma imagem na internet) mostra como o brizolismo resgatou a política nacionalista, populista e trabalhista de Vargas  Além de Leonel Brizola, outros intelectuais, principalmente da ala esquerda do PTB, foram colaboradores diretos nos textos do jornal. 
Mais que da feijoada, a saudade era da salada ao molho de mel e mostarda
                                                                      
Com a morte prematura do pai, Memélia teve como mentor o tio José Guimarães Neiva Moreira, nascido em Nova Iorque, Maranhão,em 1917, que , hoje,aos 93anos, vive em São Luiz. Com o tio ela viajou pelo mundo em situação de exílio ou não e conheceu personalidades políticas africanas e árabes.  Chegou a jantar com kadafi , em Nova York, a americana, não a maranhense.

É a única jornalista da família .O senso de observação agudíssimo desde criança a transformou numa memorialista de primeira, numa exímia contadora de histórias e sempre encontra ouvidos atentos. Guarda a sete chaves 80 agendas com anotações de tudo o que viveu  na companhia do tio político e como jornalista especializada em indigenismo e meioambiente.

Neiva Moreira e Brizola
Um pouco sobre o tio-herói de Memélia: "Neiva Moreira  um dos raros políticos brasileiros que marcaram sua ação tanto dentro do estado natal, o Maranhão, e do Brasil, como no exterior. Jornalista, publicista e político, Neiva teve uma atuação intensa nos países emergentes, transformando-se num dos grandes ativistas e teóricos do Terceiro Mundo, aquela parte do globo que, na época da guerra fria, pairava entre os antigos blocos Ocidental, comandado pelos Estados Unidos, e Socialista, liderado pela União Soviética.

Sua resistência à conspiração que redundou na ditadura de 1964, ao liderar a Frente Parlamentar Nacionalista na Câmara dos Deputados, a partir de 1961, o aproximou de Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul e já transformado numa grande liderança popular. Os dois passaram a percorrer o país pregando as reformas de base do presidente João Goulart e articulando as forças nacionalistas contra o golpe que se avizinhava e que acabou se efetivando em 1º de abril de 1964, pois tinha atrás de si o envolvimento da maior potência estrangeira.

Neiva Moreira foi preso e depois obrigado a exilar-se na Bolívia, de onde depois se mudou para o Uruguai, para, novamente com Brizola, organizar a resistência à ditadura, que se prolongaria por 20 anos. Foi então que entendeu que a crise brasileira jamais seria enfrentada efetivamente sem a junção dos povos oprimidos, particularmente aqueles dos países vizinhos, que sofriam as mesmas pressões que os nossos.
Neiva, ao centro, recebe Serra,em 2010. Primeiro à esquerda é Jackson Lago que faleceu ontem
                                                             
Naquela época, começavam a pipocar os movimentos de libertação dos povos africanos, depois de séculos de dominação pelas potências europeias. Neiva se transporta para Argélia, Angola, Moçambique e outras áreas conflagradas, de onde não só escreveria a crônica de sua libertação como participaria diretamente de suas lutas, angústias e glória.
Paralelamente, ele assessora os governos nacionalistas do general Alvarado, no Peru, de Perón, na Argentina, regimes que depois seriam varridos pelas ditaduras que sufocariam praticamente toda a América Latina.

Na volta ao Brasil, com a decretação da anistia, Neiva Moreira, que antes travara lutas libertárias contra as oligarquias do Maranhão, primeiro como jornalista e depois como deputado, fez questão de  retornar por São Luís, vindo do México, seu derradeiro exílio. Lá, implantou o PDT, partido que Leonel Brizola fundara ao chegar do exílio. Depois foi para o Rio de Janeiro, onde refundou os Cadernos do Terceiro Mundo, revista que lançara ainda em sua breve passagem pela Argentina e a continuara no México.

A história dos Cadernos do Terceiro Mundo, primeira publicação a tratar especificamente da questão dos países emergentes, se confunde com a própria vida atribulada de Neiva Moreira no exílio. Perseguido pelos grupos terroristas de direita que acabaram se apoderando da maioria daquelas nações, o velho maranhense às vezes era ultimado a deixar o país que lhe abrigava em 24 ou 48 horas, sob pena de ser assassinado.

Neiva Moreira foi presidente nacional do PDT, líder na Câmara por duas vezes, presidente da Comissão de Relações Exteriores e por fim tornou-se um dos principais assessores do governador do Maranhão, Jackson Lago, liderando do Palácio dos Leões a resistência à cassação de Lago, por fim consumada, em 2009, por pressões da oligarquia maranhense. (Fonte: site do PDT)

Não precisamos esperar a publicação de livros para saber histórias vividas por Memélia. Podemos  encontrá-las aqui http://memeliamoreira.com/blog1 
Segue um trecho pra vocês ficarem com água na boca. Corram lá!!!

NOITE EM CUERNAVACA

 Memélia Moreira

 Era sábado e fazia muito frio na cidade do México naquele fevereiro de 1978. Meu tio, Neiva Moreira, que ainda amargava o exílio, acordou cedo e anunciou que íamos sair antes das nove da manhã para viajar. No caminho, compramos um bolo confeitado para comemorar o aniversário de uma das figuras que mais admiro na História do Brasil, Francisco Julião, que desde sempre fez parte do meu imaginário com suas lutas pela Reforma Agrária. 
Francisco Julião,o organizador das Ligas Camponesas
                                                                  
O bolo parecia um arco-íris tantas e tão fortes eram as cores. No México, todas as cores e sentimentos são fortes. Até mesmo o dia dos mortos é comemorado com cores. O bolo seguia a tradição. Subimos e descemos montanhas num “carro de praça”, antiga denominação para táxi, ainda usado por Neiva. 

Era confortável, mas mesmo assim não consegui continuar o sono interrompido. Seria quase um sacrilégio dormir e perder todos os momentos e paisagens daquele que é um dos países mais fascinantes que conheci. E só no caminho fui informada de que seguíamos para Cuernavaca, a capital do Estado de Morelos. Clique no título para ler a íntegra.

6 comentários:

  1. Li tudo e sinto não estar aí para não apenas rever, mas ouvir histórias do País testemunhadas ou narradas por Memélia Moreira. Neiva Moreira,então, vive em São Luís? Que longevidade! passou dos 90 há tempos. Fui colaborador da "Revista do Mercosul", que tão bem ele publicou no Rio de Janeiro. Digamos que ela fosse uma priminha da "Cadernos do Terceiro Mundo" (que revistaça!), na qual Memélia também pontificou. Parabéns a este Café&Veneno por tão rica informação, Clara Favilla! Abraço fraterno.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada pela leitura, querido Montezuma.
    Grande abraço!

    ResponderExcluir
  3. Pois é Memélia, vivemos coisas e o seu tio Neiva em todas elas até hoje. Abraços para ele (em nome da filha do Cara de Onça) e beijos para você que conserva tantas coisas na memória.

    ResponderExcluir
  4. Que linda história, Memélia. Não sabia que você era filha e sobrinha dos Neiva Moreira. Veja como são as coisas. Convivi com você há (muitos) anos sem saber.
    Continuo sem vê-la desde que chegou a BSB. Viajo para o Rio no domingo. Fico lá uma semana. Você está muito bem na foto!

    ResponderExcluir
  5. Quero ver Memélia de novo. De pijama do Garfield. Clarita, você está arrasando no Blog. Parabéns, queridas.

    ResponderExcluir
  6. Parabéns pela matéria! Somente hoje li!

    Coloco meu contato a disposição elenisz@uol.com.br

    Elenice Szatkoski

    ResponderExcluir