domingo, 30 de junho de 2013

MENINOS, EU VI

*Eduardo Balduino 
Eu vi, por exemplo, Brasília nascer. Em Goiânia, vi o horror da Ditadura pelos meus olhos ainda de uma criança que não entendia porque o pai, tio, tia, eram presos. Aliás, em Goiânia, foi a primeira vez que vi as pessoas na rua defendendo sua convicção, confrontando caças e tanques em defesa de seu governador. E foi lá, anos depois, que vi o primeiro comício pelas Diretas Já.

Eu vi, em Brasília, a força do sentimento de gratidão quando o povo levou o caixão de JK nos ombros e fez a força militar ainda da Ditadura recuar.

Antes, eu vi, ainda em Goiânia, dois fenômenos que, hoje, poderiam ser criticados pelo viés da estética, mas que mudaram o mundo. Vi, em 68, os jovens parisienses e, em 69, os jovens de Woodstock.

Nossa! Vi, também em Goiânia, Geraldo Vandré cantando, pela última vez no Brasil, “Prá não dizer que falei de flores”. Na verdade, ele não cantou. Fez um show fantástico, para 3 mil pessoas no Cine Teatro Goiânia. No final, sob os pedidos para cantar o hino da resistência à revolução, começou a dizer que estava proibido de cantá-lo, enquanto, no fundo, a banda tocava - e cantamos nós todos a música, guardados por soldados que preenchiam os corredores do teatro. De lá, Vandré foi para o Chile, naquela mesma noite.

Vi, e compreendi, a força da arte nas revoluções. Como nesse show que aconteceu em Brasília, no último dia 29 de junho, em homenagem a Renato Russo.




Vi, nas redes sociais, muita gente criticando o espetáculo, porque um ou outro errou a letra, ou porque Jerry Adriani – que pouca gente hoje sabe quem é – estava lá. Como tentaram ridicularizar Ivete Sangalo chorar sentada no chão do palco.
Respondi, para uma jornalista: vocês estão vendo o show, e eu, o fenômeno.
Meninos, estou vendo agora um movimento de ruptura cultural acontecendo no país e tem gente preocupado com o desafinar de um cantor.
Talvez não tenham notado, no telão de fundo de palco, a bandeira do Brasil tremulando seguidas vezes. Nem percebido o mestre de cerimônias do show pedir – e conseguir – um minuto de silêncio pelos mortos nas manifestações que se multiplicam no país há alguns dias – e que estão mudando o país.



 
Pois, o que eu vi no show transmitido ao vivo de Brasília foi a irreversibilidade desse movimento, que começou com uma reivindicação de tarifas de ônibus mais baratas, e se transformou na mola propulsora de mudança de um ciclo. 
A ponto de os que o iniciaram também não entenderem a sua extensão e se renderem ao seu próprio alvo.A ruptura se dá quando é transformada em sentimento uno. No tributo a Renato Russo, eu vi isso.
Não são os vinte centavos da passagem de ônibus. Não são os estádios erguidos para a Copa.
É o sentimento de mudança que se cristalizou no país.

E, por ele, estamos todos cantando juntos, desafinados, ou não. Mas, todos no mesmo tom: o da mudança. 

*Jornalista

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