terça-feira, 16 de abril de 2013

Jornais mudam para ganhar leitores. O que ganham sendo não jornais?

Renato Janine Ribeiro é  professor-titular da cadeira de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Escreve no Valor Econômico. 
Faz tempo que os jornais procuram conquistar um público que não gosta de jornais. Quando o Estadão diz, ontem, que os leitores querem "mais conveniência e eficiência de leitura, um jornal mais compacto", está dizendo, com muita tristeza no coração mas evitando mostrá-la, que os leitores querem um jornal menos jornal.

 Quando a "Folha" faz, cada poucos anos, uma mudança gráfica que torna o jornal de mais fácil leitura, reduzindo o tamanho dos parágrafos e aumento o tamanho das fontes, chegando a permitir que na Ilustríssima o espaço branco predomine sobre o escrito, está procurando ganhar os leitores que não gostam de jornal. E ainda diz que a mudança é para melhor, é gloriosa etc. 


Sempre senti que seria como eu, professor, me gabar de dar aulas mais curtas, com menos conteúdo, falando mais devagar, usando menos palavras.A pergunta é parecida para jornais e professores: dá para manter sua share na imprensa, se vc não acredita que seu produto é bom, bom demais?


Dá para apostar na mídia impressa quando ela mesma se disfarça em não-impressa, reduz as palavras, acelera as coisas, querendo conquistar um leitorado que não é o dela? Não percebem que dizer - implicitamente que seja - que o produto não é bom, que precisa ser disfarçado, é a pior estratégia para conquistar quem já nao aprecia - ou nem quer conhecer - o produto?

Isto é muito parecido com algo que acontece na educação.
Para conquistar alunos dispersos, quantos não buscam recursos que não são os da educação? Se se vai falar em personagens admiráveis, recorre-se ao ídolo do momento, até mesmo um Neimar. Fica tão claro que o professor não tem coragem de dar, como modelo, um escritor, um artista, um cientista. Fica tão claro que se tenta entrar na festa pelos cantos, envergonhado.
Muito em tese, penso que nem os jornais ganham se fingindo de não-jornais, nem ganha a educação quando o educador disfarça o que ela é.


Reprodução de comentário de Janine do FaceBook.
Para ler as colunas de Janine no Valor Econômico clique AQUI

sábado, 13 de abril de 2013

Uma aula sobre burca

O filósofo e poeta Antonio Cícero deu  interessante, esclarecedora e longa  entrevista exclusiva a Aetano Lima. O Café & Veneno pede licença ao autor  para  publicar alguns trechos. O intuito é realça-los e facilitar a leitura.  Leia a íntegra da intrevista com um clique AQUI.

Mulheres ditas informadas que optam pelo uso da burca deveriam renunciar a qualquer vida – ou pronunciamento – público.

Antonio Cícero
A burca faz parte de um sistema cultural. Assim, entre os talibãs, que estão entre seus principais defensores, por exemplo, as mulheres não são apenas obrigadas a usar a burca, mas são também destituídas de autorização para trabalhar fora, proibidas de se escolarizarem depois de oito anos de idade e, até então, obrigadas a não estudar senão o Alcorão; caso violem as leis talibãs, estão sujeitas a serem publicamente açoitadas.
Creio haver basicamente cinco tipos de mulheres que usam a burca.

O primeiro é o das mulheres que são simplesmente obrigadas a fazê-lo pelas suas famílias.
O segundo é o das mulheres que acham natural serem submetidas a semelhante sistema cultural. Foram convencidas disso exatamente por ignorância: por nada terem aprendido, fora técnicas domésticas e preconceitos de origem religiosa e cultural. Não conhecendo alternativas, é por ausência de liberdade, não por liberdade, que elas querem usar a burca.
O terceiro, que em grande parte coincide com o segundo, é o das mulheres que optam pela escravidão ou pela eterna minoridade, de modo a escapar das responsabilidades que advêm da liberdade.
O quarto é o das mulheres que, jamais tendo sido obrigadas a usar a burca, decidem fazê-lo para afirmar sua identidade cultural e religiosa islâmica. Isso ocorre principalmente entre mulheres muçulmanas que vivem no Ocidente, inclusive entre mulheres que, não tendo origem muçulmana, converteram-se ao islã. A maior parte das fundamentalistas é composta de tais mulheres.
O quinto é o das mulheres que usam a burca idiossincraticamente, sem terem nenhum compromisso cultural com o que ela representa, por mero capricho ou moda.
Veja bem: penso ser evidente que a imensa maioria das mulheres que usam a burca pertence ao primeiro, ao segundo e ao terceiro grupo. São as mulheres que por diferentes razões são, voluntária ou involuntariamente, escravizadas pelos seus pais, irmãos e/ou maridos.
A função da proibição da burca é fazer com que, por motivos práticos, (1) os maridos dessas mulheres deixem de impor seu uso a elas; (2) essas mulheres mesmas deixem de considerar natural o uso da burca, e, consequentemente, sejam capazes de abandoná-la, (3) fazer com que cada uma delas assuma uma personalidade pública, inclusive as responsabilidades e liberdades que fazem parte de tal personalidade.
É verdade que a proibição significa também impedir o exercício da liberdade de usar a burca pelas mulheres do quarto e do quinto grupo. Entretanto, não só elas são muito poucas, em comparação com as dos primeiros grupos, como, no que toca às do quarto grupo, há algo de espúrio em sua adoção da burca. Por que? Porque, segundo a formulação usada por você, trata-se de mulheres que decidiram fazê-lo “de modo livre e informado”. Nesse caso, elas devem saber que a burca faz parte do sistema cultural que descrevi acima: e que, segundo esse sistema, as mulheres não devem ser livres nem informadas. Se quisessem realmente afirmar a identidade cultural e religiosa islâmica, deveriam também, abandonando seus empregos, já que são mulheres, encerrarem-se no lar, deveriam se restringir a ler o Alcorão, deveriam apoiar a adoção da “lei islâmica” ou charia (que despreza os direitos humanos) e deveriam renunciar a qualquer vida – ou pronunciamento – público.
Quanto ao quinto grupo, que usa a burca por mero capricho ou moda, penso que a perda de liberdade que sofrem ao ter que abdicar do seu uso não é nem de longe comparável com a escravidão sofrida pelas mulheres que são obrigadas a usar a burca.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sobre indignações cínicas e serôdias

 Por Aetano Lima


1. Um dia antes do artigo do Vladimir Safatle (Folha de 02/04/2012), eu escrevi no Twitter: Marco Feliciano é um marco - um marco do avanço do fideísmo.

2. Por que o fideísmo avança? Onde ele avança? A resposta a estas questões aponta para uma omissão gravíssima.

3. Temos quase VINTE ANOS de social-democracia no poder e nenhuma mudança significativa em termos educacionais. Como o fideísmo alimenta-se também de ignorância, uma parte dos frutos que estamos colhendo agora é decorrência dessa grave negligência.

4. Não bastasse isso, PT e PSDB passaram, cada um a seu modo, a dar cada vez mais espaço à bancada fideísta (católica ou evangélica), já que eram seus devedores. Com efeito, na busca desesperada por votos, aqueles partidos, durante as últimas eleições, deram-se à lavagem de pés de padres e pastores e, como incoerência nunca foi um problema para eles, adotaram a retórica fideísta, em detrimento de suas bandeiras históricas.

5. Agora os tentáculos do fideísmo começam a incomodar, e os intelectuais - que aqui na nossa terrinha só preveem o passado - despertaram para esse risco, mas, estranhamente, com uma certa resignação.

6. Pois bem, na próxima eleição, o jogo repetir-se-á, a bancada da fé vai aumentar e a ameaça de retrocesso idem. Preparem seus ouvidos para as indignações cínicas e serôdias.

Aetano @Aetano " Um anarquista bem-comportado." É graduado em Odontologia e Direito.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Canção do Amor Tranquilo


Canção do Amor Tranquilo

Encosto o meu rosto
No teu ombro moreno
Imensa é a solidão
Mas o mundo é pequeno
Por acaso encontrei
Mesmo em Roma ou Paris
Amigos do Brasil
Só não achei quem quis
A alma desejada
Em perfeita constância
Em anos solitários
Obsessão da infância
Aceito o destino sem queixas
Estou sereno
Encosto o meu rosto
No teu ombro moreno

Na tarde do dia 15 de outubro de 2007, perdemos um mestre de excepcional valor: o poeta, crítico literário, dramaturgo, jornalísta e professor Cassiano Nunes
"Quando pisou no aeroporto do Galeão (RJ) – vindo de Nova York –, Cassiano Nunes Botica voltava ao Brasil depois de cerca de quatro anos de estudos na Alemanha e nos Estados Unidos. Não fazia idéia de onde trabalharia. Largou o emprego de professor de literatura brasileira na Universidade de Nova York para retornar ao país natal. Ao longe, avistou o amigo que entrelaçaria sua história à de Brasília. O senhor magro, calvo, de óculos era o poeta Carlos Drummond de Andrade. Ao escutar o pedido do amigo por um emprego, Drummond pediu calma. Duas semanas depois, o escritor mineiro o indicaria para lecionar na Universidade de Brasília (UnB), no Instituto de Letras (IL). Era 1966 e Cassiano permaneceria na instituição até 1991. Passados 38 anos, o jornal UnB Notícias homenageia, na série Personalidade, o poeta, crítico, professor, ensaísta e Doutor Honoris Causa (título concedido em 2002). Ou como ele mesmo se chama – o "velho cão" do Cerrado.

Em Brasília, além da própria produção literária, Cassiano Nunes – formado em Letras Anglo-Germânicas e Contabilidade (por pressão do pai) – é referência na formação de vários poetas, entre eles João Carlos Taveira, Climério Ferreira e Gustavo Dourado. Pela contribuição para a cidade, tornou-se cidadão honorário de Brasília em 2001. "Ele sempre nos promoveu e chegou a montar exposição em Paris só com poetas brasilienses", afirma o poeta e jornalista Guido Heleno, ex-aluno de Cassiano.

Um dos maiores estudiosos da vida e da obra do escritor Monteiro Lobato, Cassiano Nunes vive em meio à biblioteca que ocupa grande parte de sua casa na 711 Sul, em Brasília. Amigo de Mário e Oswald de Andrade, Antônio Cândido e Patrícia Galvão (Pagu), ele só começou a escrever poesias depois dos 40 anos – até 2002, publicou 63 obras, entre poesias, ensaios, artigos e críticas. No último dia 4 de maio, lançou sua mais recente obra: Literatura e Vida, uma coletânea de artigos.

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Amiga de longa data, a professora da UnB Maria Jesus Evangelista, conhecida como Majú, revela como é o processo criativo de Cassiano: "Ele não faz sequer correções nos versos. A inspiração vem e o poema já sai com a cara dele". Sua poesia é adepta do estilo livre, com ritmo simples parecido com o de Manuel Bandeira. Modernista e contemporâneo, segundo Majú, seus poemas apresentam incursões pelo simbolismo impressionista. "É lírica, mas não piegas. Ele é um virtuose do verbo livre", detalha.

Fonte: Revista da UnB.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cleusinha, fim de semana com Deus e o mundo, menos com quem ela quis

Cleusinha não gosta de passar recibo. Quando acorda triste, nada de sair de qualquer jeito. Banho demorado, perfume e café forte fazem parte de sua receita pra não sair trôpega de casa. Chefe nenhum quer, logo de manhã, nas reuniões de pauta,  zumbi, mulambo, gente de olheira sem ter lido os jornais e revistas de fim de semana.

Não é repórter, é uma faz-tudo na redação. Tipo secretária de luxo, assessora para assuntos profissionais, pessoais e aleatórios. Fala inglês, arranha francês e tem um portunhol muito eloquente que está aprumando com a cubana que começou esses dias a trabalhar na sucursal de Brasília.

Participa das reuniões de pauta, anota tudo e até dá palpites. Quando alguém quer medir a temperatura de determinado fato chama a Cleusinha. Ela comenta as roupas da Dilma, sabe que a rainha da Inglaterra foi internada com problemas estomacais, quem tá saindo com quem. Já nos primeiros capítulos diz se uma novela emplaca ou não. E avalia como ninguém os programas eleitorais. Se você não sabe, já leu muitas colunas reproduzindo comentários inteiros da Cleusinha sobre política e economia. Ela é a voz do povo que refresca certezas enferrujadas e coloca por terra, muitas vezes, trabalho de um dia ouvindo especialistas, 

Cleusinha é a memória da redação e principalmente do chefe por quem tem devoção. Sabe a senha dele no banco. Faz retiradas no caixa automático, faz pagamentos e depois dessas saídas é capaz de chegar com uma gravata nova pra ele. Bem mais bonita do que a jararaca da mulher comprou na Itália. E diz isso bem alto pra quem quiser ouvir, inclusive o chefe. 

Sabe nada de vinho. Mas o chefe só compra o que ela degusta e aprova.A boca da  Cleusinha nasceu pras delícias dessa vida. E vai logo desfilando características que deixam os entendidos de cabelos em pé e mudos. "Este vinho compra não chefe, dá  um travo no céu da boca e desce pesado. É daqueles que dão dor de cabeça. Este outro só é bom pra quem gosta de cravo, canela. E este tá parecendo a cidra que minha mãe compra pra fazer ponche" 

Mas vou parar de descrever a Cleusinha e ir ao que interessa. A fofa chegou, pela manhã, à  redação, de cara boa como sempre, mas meio borocoxô. Não trouxe pão-de-queijo pra ninguém e o pior, começou  cantarolar música da tia Rita Lee : "Kiss me baby, kiss me baby, kiss me/ Pena que você não me kiss/Não me suicidei por um triz/ Ai de mim que sou assim!" Um dos fotógrafos gritou lá do fundo redação: " Ai, ai, Cleusinha, desembucha. Diz aí o que não deu certo no fim de semana". E dela ouviu um sonoro: "Vai te catar cara!" 

 Ihhhhhh, melhor não cutucar a onça com vara curta!

Depois da reunião de pauta, com o dia já encaminhado, pausa para um café. Cleusinha chega ,me dá um beijinho na orelha e suspira. Fico logo sabendo que no fim de semana  ela encontrou Deus e o mundo. Só não encontrou quem quis. Faz uma carinha de conformação e vai cuidar da vida que não é de ficar pensando na morte da bezerra. Sai de fininho pra encurtar a conversa. 

E eu, ali esvaziando devagarinho a Xícara de café,  me lembro do poema do querido professor Cassiano Nunes: Por acaso encontrei / Mesmo em Roma ou Paris/ Amigos do Brasil / Só não achei quem quis / A alma desejada / Em perfeita constância / Em anos solitários/ Obsessão da infância / Aceito meu destino sem queixas / Estou sereno / Encosto o meu rosto / No teu ombro moreno / Imensa é a solidão / Mas o mundo é pequeno."

Essa Cleusinha é mesmo da pá virada. Me faz rir, me faz chorar. 

Mal me recupero dos versos de Cassiano e a danadinha passa por mim de novo e de novo cantarolando tia Rita Lee: "Quando eu me sinto um pouco rejeitada/ Me dá um nó na garganta / Choro até secar a alma de toda mágoa / Depois eu passo pra outra/ Como mutante/ No fundo sempre sozinho/ Seguindo o meu caminho/ Ai de mim que sou romântica!".

Faz uma paradinha e diz que vai dar uma fugida. Acabou de quebrar duas unhas. E a amiga da copa, dublê de manicure, lhe dará atendimento de urgência, na sala ao lado.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Cleusinha - Nem aí para a sucessão papal

Por Clara Favilla

Cleusinha tá nem aí para a sucessão papal. Nem acha nem desacha se o Sumo Pontífice (gosta de se referir a ele assim) deveria ter renunciado ou não. Cada um sabe de si é seu ditado preferido. Não julga e não quer ser julgada. Não digo que tem a inocência das crianças como se costuma dizer, mas tem uma delicadeza desconcertante até quando fala alto ou gargalha.

As amigas dizem que ela precisa dar um trato no cabelo, mas ela gosta deles assim, sempre em briga com o vento, com a chuva, com o tempo seco de Brasília, com o travesseiro. Cleusinha começou três faculdades e abandonou todas: por falta de paciência, de dinheiro ou tédio. Nem tem 30 anos. Aos 25 já havia largado e sido largada pelo marido. Diz que graças a Deus ainda não teve filho. Graças a Deus e à sorte porque pelo jeito que fala nem sei se teve ou tem os cuidados que lhe garantam nenhum bebê à vista agarrado-lhe às pernas.

Gárgula, Notre Dame - Foto de Michael Reeve , Wikipédia Commons

Diz que tem saudades do ex-marido, mas não de ter sido casada. Ele queria refiná-la: que rebolasse menos quando dançasse, que falasse menos, risse menos quando estivesse entre homens. Fosse menos debochada, insolente. Quando toca no assunto, não demora a se exasperar. Começa falando baixo, mas de repente puxa e repuxa nervosa as pontas dos cabelo, olha pro teto até que explode num: "Porra, não sei o que ele queria de mim. Se me queria de outro jeito porque se casou comigo?"

De tanto o marido querer reformá-la, ajustá-la ao próprio figurino e o da família, Cleusinha começou também a construir implicâncias contra ele por isso e por aquilo. Precisa levantar tão cedo, tomar banho de mais de meia hora, querer tanto café e sempre passado de novo quando está em casa?  E pra que tantos livros, revistas e jornais?

O marido inventou  férias em Paris e Roma. Trouxe-lhe guias e dicas de amigos para ela saber onde estava pisando e ele não ter que ficar lhe explicando tudo o tempo todo.  Ela não leu nenhum e fingiu de morta quando ele lhe repassava irritado alguma malditas pendantes dicas. Mas foi ela que teve paciência de ficar na Notre Dame até que os olhos se acostumassem com a falta de claridade. Até que alma voasse por cima das centenas de cabeças de turistas e alcançasse as cores dos vitrais mais altos. Foi ela que subiu centenas de degraus para ver o que poderia ver lá de cima e ficou sabendo tudo sobre gárgulas e o passado escondido sobre a base da catedral.

Cleusinha é sortuda. Gosta, como eu já disse, de aprender de ouvido, desde que possa decidir quando e sobre o que prestar atenção. Não é que encontrou lá em cima um casal brasileiro muito simpático que lhe explicou tudinho o que queria e o que nem queria saber? E ainda lhe convidou pra almoçar, o que ela polidamente recusou porque, embora não pareça, é bem tímida.  Depois de um passeio pelas jardins da catedral sem entender porque ela é muito mais bonita de costas que de frente,  procurou e não encontrou o marido que havia visto pela última vez... quando mesmo?

Entraram, sim,  juntos na catedral e  ele, logo em seguida,  irritado por alguma coisa que ela nem captou direito, distanciou-se dela até desaparecer na penumbra. Ela achou que se andasse pra frente, se fosse até o altar, se subisse as escadas até o campanário, acabaria por encontrá-lo. Não só não o encontrou, como até se esqueceu dele alguns minutos depois. Havia entrado naquele estado, velho conhecido seu, de maravilhamento total.

Ao chegar bem perto da Madona de Paris fez os três pedidos de praxe, quando se entra pela primeira vez em uma igreja. No caso dela, é sempre um que repete três vezes: saúde, saúde e saúde. Agora estava ali, sozinha, sem saber pra onde ir.  Fechou os olhos para pensar um pouco antes de decidir  e ao abri-los lá estava o casal fofinho recém conhecido, de bobeira,  conferindo a paisagem refletida no Sena. Como recusar de novo o convite para almoçar?  O marido certamente não se deu ao trabalho de procurá-la por muito tempo. Sempre optava pelo óbvio, pelo mais fácil. Já deveria estar no hotel. Então, que a esperasse.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Cleusinha e Jorjão, feitos um para o outro

Por Clara Favilla

Quando a campainha da porta da frente tocou, ela estava completamente desprevenida: de meias porque tem pés frios, só de calcinha e uma camiseta desbeiçada. Cabelos que nem ninho de gatos. Não tinha tirado muito bem a maquiagem da noite anterior. Olheiras. Havia escovado os dentes? Não se lembrava. Havia acordado no maior bode. 

De novo a campainha estridente. E naquele apartamento ainda não mandara instalar o maldito do olho mágico. Fingiu que não era com ela e foi pra cozinha tomar  um copo d'água. Mas a campainha já disparava novamente. Quem fosse, lá fora, não desistiria fácil. 


Com um fio de voz perguntou quem era. "Sou eu", foi a resposta.
Sou eu quem, perguntou ela, de novo,  já com as mãos suando frio.
Um sonoro porra ecoou pelo corredor.
 _ Porra, sou eu. Não reconhece, minha voz?"

Cleusinha coloca as mãos na cabeça: 

_ Puta que o pariu! O que faz você a essa hora de manhã  na minha porta . Morreu alguém? O que você quer?
_ O que eu quero?  Tem graça uma pergunta dessa?
_ Não vou abrir a porta. Tô descabelada, nem tomei banho, nem café, nem nada... Nem  me lembro do que aconteceu entre a gente na última vez que nos vimos. Nem sei como você chegou até o meu andar se nem a chave da portaria tem.
_  Esqueceu que o prédio tá em reforma? Que a portaria tá aberta? A última vez que nos vimos não foi no século passado, nem no mês passado. Foi ontem à tarde.  E tô me lixando se você se lembra ou não.  Eu me lembro e foi bom. Pra mim e pra você. E quero mais.
_ Cara, vai embora  e avise com pelo menos uma hora de antecedência quando quiser passar por aqui novamente. Não tô a sua disposição.

A vizinha do lado abre a porta. É hora de levar o cachorro cego pra passear. Latidos finos, nervosos.  Cleusinha se afoba. A vizinha não é flor que se cheire. Já implicou de mulher solteira, ela, ter alugado o apartamento ali, parede meia. Que diabo! Se adivinhasse essa aporrinhação teria dado o fora de casa mais cedo. Resolve, enfim, abrir a porta.

_ Já tava contando até três. Ainda bem que abriu, se não abrisse nunca, nunquinha ia mais me ver.
_ E eu tô preocupada com isso? Nem sei se teu nome é mesmo Jorjão, Jorge. Jorjinho. Nem vi tua carteira de identidade. Nem sei teu endereço, se trabalha onde mesmo que diz. Nem com quantas anda.
_ Mulher, corre que tô apressado. Preciso de café e cafuné.
_ Mas do que você, Senhor Encardido, precisa primeiro, indaga com a voz já incapaz de sustentar qualquer braveza.
_  E tem isso de primeiro e segundo? Quero tudo junto.
E Jorjão, o Encardido, dá um tranco por detrás na Cleusinha, a Descabelada. E vão engatados até a cozinha. Ele com a força e ela derretida.