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sábado, 8 de outubro de 2011

Do cinema para a vida ... somos (quase todas) irmãs de Liv Ullmann

por Leda Flora (Blog Papo Furado) 

Quando algo pega a gente pra valer, sempre dá um jeito de retornar com frescor, independente dos variados espaços entre as ondas de memória que o leva ou traz. A geografia de episódios assim indica que esse território se chama emoção. O material, por maior prazer que o sustente no momento da posse, está longe do atestado de vida longa. Pertence ao espaço do efêmero. O espanto da emoção, ao contrário, se eterniza. E se eternizou em mim o primeiro close da atriz norueguesa



 Liv Ullmann que eu vi dentro da sala escura. O título do filme voou,  restou apenas o olhar. Nos outros filmes dela que persegui, queria apenas ver novamente como dois olhos estáticos conseguiam tanta eloquência, como podiam dizer tanta coisa, como explicavam sentimentos em plena mudez, como exibiam a sensibilidade extraordinária dela.
E um belo dia, provavelmente da década de 1980, encontrei por acaso um livro - Mutações - que me despertou enorme curiosidade por se tratar da autobiografia de Liv. E que se tornou meu amigo e guardo até hoje. Logo eu, que dou meus livros aos montes. Ali, ela contou o mistério do close: vinha de pensamentos atrás da testa, muitas vezes encadeados, como dúvidas, covardia, ambivalência, falta de nobreza espontânea requeridas pela personagem. Ou ainda a revelação do tipo de vida que seu rosto observou. Tudo muito interior, abstrato como a matemática, e distante da maquiagem, do cabelo, da beleza.



As histórias de Liv são contadas com uma delicadeza nórdica, quase política. Abre ao leitor uma série de contradições, como se sentir forte e frágil simultaneamente, como gostar de ser paparicada em Hollywood mas desejar  correr sempre para Oslo, como perceber-se às vezes mais solitária na companhia de um homem do que sozinha. Relata o temor da velhice para quem conheceu muito bem os holofotes, a necessidade e as  armadilhas do amor, as dificuldades de ser mulher nos anos 70, o mal -estar de não poder estar mais perto da filha Linn, seu amor maior.

Muitas páginas são dedicadas a Ingmar Bergman, o diretor sueco com quem se casou e teve a filha. Isolados na Ilha de Faro, entre a Rússia e a Suécia, que ele amava muito mais do que ela, viveram durante cinco anos fases tão pesadas que mais pareciam os filmes dele, dez dos quais a elevaram à categoria de grande estrela. Liv resume a vida com Bergman dialeticamente: "A única maneira de me sentir segura era viver do modo que ele queria. Pois só assim ele estava seguro".

Lendo Mutações me senti irmã de Liv. Nenhum sentimento dela me era estranho. Atitudes que tomou eu teria tomado também. Sua visão de mundo me soou familiar. Suas dúvidas me chegaram plausíveis como também suas dores e seus medos. E olha que não conheço fiordes, não me casei com um gênio sueco, não fiz teatro ou cinema, não acompanhei Henry Kissinger num evento, não jantei com Leonid Brezhnev e Richard Nixon na embaixada russa em Washington, não fui disputada por Hollywood, e nunca esqueci um alfinete no vestido e só percebi no meio da festa.
 Com ela, passei também por uma mutação: perdi a crença na superioridade do macho branco europeu. Afinal, se Liv e eu éramos tão próximas, a ideia não se sustentava. E passei a olhar de banda os adoradores do Primeiro Mundo, hoje em processo de queda, que mal conseguem esconder o sentimento pessoal de inferioridade. Jamais conseguirei apreciá-los.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ela todo dia faz tudo igual: se atira do térreo... Conheça Maria Lúcia, a tuiteira

por Memélia Moreira

Na vida, real ou imaginária, há quem mate um leão todos os dias. Outros cantarolam, às vezes artisticamente, que todo dia é dia de índio. Uns tantos, os queixosos rotineiros, reclamam da falta de originalidade dizendo que todo dia  ela faz tudo sempre igual. Mas só ela, Maria Lúcia, todos os dias se atira do térreo. E faz sempre tudo igual, até mesmo matar seus leões, medos, frustrações que se sucedem diariamente numa sequencia de bipolaridades e incertezas.


Mas quem é Maria Lúcia? Ela existe na vida real ou é apenas mas um desses personagens que vivem no planeta de Nenhures? Ela pisa no chão, almoça, toma banho, lê, ama? Ou flutua no etéreo mundo virtual? Que idade ela tem? É bonita igual a imagem pública que divulga? Ou é apenas comum e se esconde sob o escudo de uma beleza consagrada?


Sim, Maria Lúcia existe. E apesar de ainda não ser uma mulher famosa, com ensaios ou livros publicados, sem sequer ter posado nua ou participado dos bigbroderes, ela tem um biógrafo oficial. Chama-se Lula Falcão, cronista, jornalista, pernambucano, radicado na República da Vila Madalena, São Paulo.


Lula tem esse dom extraordinário, quase exclusivo dos cronistas, que é o de observar,com acuidade e ironia, o comportamento humano na sua individualidade e nos seus envolvimentos coletivos. Foi isso que ele fez ao traçar o perfil de Maria Lucia.


Ela é o o retrato de uma personalidade que começa a chegar à idade madura sem ter conquistado seus ícones próprios. É a digna representante de uma geração-hiato que se dividiu entre aqueles  que sentem nostalgia dos inconformistas e hippies dos anos 60 e os que, talvez por opção, foram incapazes de seguir a trilha dos yuppies dos anos 80. Daí que passam dias, e noites, caçando no baú do tempo, causas ou bandeiras válidas para o século XXI.  Tudo isso na luta incessante para pagar o aluguel no fim do mês, comer além do miojo com ketchup e, a qualquer custo, ter o suficiente para se embriagar e assim sobreviver num universo paralelo onde todas as pequenas misérias da vida se desfazem.

A  personalidade de Maria Lucia se traçou logo no prefácio. Lá está o buraquinho da fechadura para espiar esta mulher que   “... é contraditória. É maluca. É cachaceira. É maconheira. É fogosa. É angustiada. É solitária. É viciada em internet. É uma filósofa. É atarantada. É a cara do nosso tempo”. O tempo das redes sociais. Maria Lúcia, na verdade,  não passa de uma tuiteira, neologismo da  rede social,  Twitter, que tolera amor, ódio, sexo, política, poesia, ensaios, monografias, merchandasing. Tudo em 140  caractéres. 


Com todas essas característica, é claro que Maria Lúcia é uma personagem que seduz, irrita, diverte, provoca. Tipo da pessoa que mesmo escondendo seu rosto na multidão, não consegue passar despercebida. E, fisicamente, é difícil não apreciá-la. Está entre 30 a 40 anos, diz seu biógrafo. Na capa do livro, ela não mostra o rosto porque ele é feito de mil, duas mil faces. Mas há seu corpo. Um  belo corpo de mulher. Esguia, longas e bem delineadas pernas, joelhos  inspiradores. Os sapatos, apesar de gastos, são de alguém que tem bom gosto, embora se vista de modo quase vulgar. Calma, não precisa chamar as patrulhas. Maria Lúcia não está de vestido colado, curto e cor-de-rosa comestível. Ela não consegue ser totalmente vulgar. Até nisso fica no limite.


Dispersa, essa personagem é desempregada ou, às vezes, subempregada. Seu maior obstáculo é responder um formulário burocrático para deslanchar sua profissão. Obviamente, num país acostumado às benesses do estado, sua profissão, mais ou menos indefinida, depende de recursos governamentais. Quantas pessoas você conhece assim? Diante da impossibilidade, Maria Lúcia vai sufocando sonhos. Passa pela extrema humilhação de voltar à casa dos pais que, seguem a fórmula da classe média brasileira. Ou seja, a mãe lhe sugere fazer concurso público. De fiscal. Ela quer apenas sair com sua câmera na mão atrás de uma idéia.


QUERO FAMA

Tão multifacateda é Maria Lúcia que podemos encontrá-la em em diferentes  perfis dos tuiteiros. Seu biográfo, fez uma verdadeira “operação pente-fino” entre os frequentadores de sua tela do computador. E ela, a exemplo de outras marias-lúcias, busca a fama em 140 toques . E confessa seu pecadilho:
“Arrisco um comentário num post de um jornalista conhecido. Cruzo os dedos enquanto espero a resposta. Não veio. Que vergonha. Queria mesmo era dar uma notícia quente...”

Nesse mundo de tuiteiros, há muitos que seguem a fórmula de Maria Lúcia, já profetizada por Andy Warhol. Fama quae sera tamen..Ou, por 15 minutos. Outros criam uma vida totalmente fictícia. Tuitam suas ilusões e terminam por acreditar nessa irrealidade talvez para fugir da aridez de suas próprias vidas. O Twitter tem sua biodiversidade. Há acadêmicos enfadados, curiosos anônimos, intimidades artificiais, encontro de velhos amigos e de novos amigos de infância e, principalmente, um dilúvio de informações. Até mesmo as úteis.

A edição do livro optou por uma diagramação (ai que saudades de ver uma página de jornal sendo diagramada!) que usa o símbolo @ para iniciar cada parágrafo. Até nisso, a biografia escrita  por esse jornalista, escritor e tuiteiro nos remete à vida do mundo virtual. Afinal de contas, o símbolo da arroba que há tempos tinha cheiro de naftalina,  vestiu roupa nova e se impôs ao mundo desde que o computador  se popularizou. Portanto, embora seja essencial para os tuiteiros, ela é entendida por qualquer pessoa que tenha acesso ao revolucionário mundo da internet.

Não sei se Lula Falcão, jornalista que aprendi a admirar exatamente nesse  universo etéreo tem consciência de ter escrito o primeiro manual psicanalítico  dos tuiteiros. Mas só sei que escrevi esse texto cheia de cuidados. Afinal de contas, tento analisar o livro de uma pessoa que tem um texto onde reúne profundidade, leveza, humor e ironia. Claro, tem um pouco mais de 140 caractéres. Por isso, apaguei. Ops! Deletei frases, reescrevi trechos. Enfim, suei num ambiente onde a temperatura está sempre a 22° C. Quase roendo as unhas, igual foca na sua primeira matéria de 15 linhas.


Mas chega de blablábla. Recomendo a leitura. E garanto que “Todo dia me atiro do térreo #tuiteira” vai fazer você se sentir totalmente normal. Só peço que quando terminarem de ler, me informem se Maria Lúcia é real.
P.S. Antes que me esqueça. A editora se chama BOOKESS

domingo, 29 de maio de 2011

"O que tem de acontecer tem muita força"

Por Clara Favilla

O livro 'Saga Brasileira - a história de um povo por sua moeda, de Míriam Leitão,  está no topo dos mais vendidos, nos últimos dias. O lançamento começou pelo Rio (17/05), depois Brasília (24/05) e por último em São Paulo (26), sempre com sucesso de público.  

Fiz questão de começar a sequência de fotos, por esta. A autora na apresentação do livro agradece a Sérgio Abranches (logo atrás), "companheiro de tantas aventuras", que a apoiou no enfrentamento dos desafios inerentes à tarefa. Trata-se de um livro necessário. Precisava acontecer do jeito que aconteceu. Desistir dele não era a opção aceitável, ouvia repetidamente do marido.
Eu e a amiga
A autora merece a repercussão de sua obra.  Profissional dedicada, ousou falar de um Plano, o Real, que mudou o Brasil, sem academicismo, como se conversasse com o grande público que a lê em O Globo, a vê na TV Globo, a escuta na CBN e interage com ela no Twitter. 

Escreveu o Saga Brasileira com o coração e o dedicou aos filhos de quem diz ter roubado tanto tempo de delicioso convívio para seguir as histórias nele narradas.   Certamente o livro se tornará uma referência para quem se debruçar sobre as décadas de construção da democracia e da estabilidade monetária no Brasil. 

Eu com a família Abranches: Jane, Fernando, Sérgio e sobrinho
Mirinha mora no Rio com o marido, cientista político com os dois pés no jornalismo.  Mas o coração dela bate forte em Brasília. Os dois filhos, já casados, também jornalistas, Vladmir Netto (TV Globo) e Matheus Leitão (Folha de São Paulo), moram na cidade, onde nasceram seus dois netos e um terceiro nascerá em setembro. 

Nira e Miríam, amizade de toda a vida
"Éramos, então, jovens, obstinados e solidários", disse-me ela, certa vez via Twitter.  Hoje já não somos jovens, mas certamente continuamos obstinados e solidários. Queríamos  uma carreira, de preferência nos melhores veículos do país, e cuidar o melhor possível de nós mesmas e dos que nos eram próximos. Queríamos que o Brasil avançasse.  E isso aconteceu.

Nélia e Leonêncio Nossa
O amor pelo ofício de observar, apurar, analisar, escrever, dialogar nos une. Uma rede maravilhosa de amigos comuns, jornalistas ou não, nos sustenta. Outro ponto em comum é a origem. Somos de família  simples, mas que plantou nos filhos o amor ao estudo, aos livros, à busca do conhecimento.
Também somos das Gerais. Ela de Caratinga. Eu de Ouro Fino. Paro por aqui, as afinidades dariam outro post.
Nélia e Fernando Luz

Registro que a galeria de fotos é só de amigos. E, assim mesmo, de nem todos que compareceram à Saraiva para o lançamento. Só dos que consegui fotografar, em meio a empolgação do momento (rs). O diretor do Bacen entrou aqui porque está com o Gustavo. O álbum completo está no meu FaceBook.

Como viram, o lançamento do Saga Brasileira,  em Brasília, foi também uma festa de encontro e reencontros de amigos orgulhosos da Míriam Leitão. Foi outra noite, não de autógrafos, mas de dedicatórias, como definiu um diplomata amigo ao Sérgio Abranches. A frase do título é de Guimarães Rosa. 
 Amália Maranhão e Mirian Guaraciaba

Míriam e Abranches com as meninas do @cafeveneno: Penha e Kátia
Vladimir Netto, Cristiano Romero, Eliane Catanhede e Maria Lima
Sérgio Leo fazendo pose
Sheila d'Amorim e Míriam
João e Inácio
Luiz Pereira, do Bacen, e Gustavo
Beatriz, Marco e Míriam
Jocimar e Míriam
Vladimir, Moreno e Mateus
Eduardo Badu e Abranches

Leda Flora, Laerte, Mariângela e Suzana Veríssimo
Vanda Célia, Mariazinha e Soninha
Miríam e o casal amigo Ronaldo Sardenberg e Célia

sexta-feira, 25 de março de 2011

À espera de uma sessão de tortura, distração com intriga policial

por Cris Lopes

Há dias nos quais que preciso de um livro light daqueles que a gente lê, curte um pouco e depois passa adiante. Nesta minha fase fisioterápica, onde a espera é respeitável, ficar olhando para as paredes não dá. Ler revistas de consultório, pior ainda. São todas supervelhas ou então as “Caras” da vida, que não me interessam.

Foi assim que descobri, na banca de jornal, os livros policiais brasileiros. Na verdade comprei porque adorei o título: “O silêncio da chuva”. Poético, não? Comprei para ler na sala de espera e no início da fisio, quando fico apenas com gelo no ombro.
                                                                    
Talvez por ignorância, não conhecia o autor. Luiz Alfredo Garcia-Roza escreve que é uma delícia. A editora, Companhia de Bolso. O livro é o primeiro romance policial do autor e já recebeu os prêmios Nestlé e Jabuti. Como não ler? Ainda levei em consideração que cabia na bolsa e não era pesado. Eu não estava buscando literatura de primeira grandeza. Queria um passatempo para uma situação específica.

Espinosa é o personagem principal. Detetive que costuma refletir sobre os crimes olhando o mar da Praça Mauá. Olha eu falando de novo em mar, parece até fixação. Bom, já perceberam que a história se passa no Rio entre a zona sul e o centro.  Não sei por que tive a impressão de que o autor mora no bairro Jardim Botânico, coisa da minha cabeça.

É a história de um executivo que se suicida em uma garagem . É encontrado morto dentro do próprio carro. Daí os fatos começam a se desenrolar, surgem personagens interessantes, amores, pistas que não são pistas, tudo muito bem engendrado e aparentemente sem pistas reais. O final, claro, não vou contar, quem sabe alguém quer ler o romance? É uma boa história, mas nada espetacular. Afinal, Chico Buarque, polemicamente, diga-se, também ganhou o Jabuti e não gostei do livro.
                                                                        
A verdade é que gostei do livro de Garcia Roza, levezinho como me convinha. Por isso já comecei a ler outra obra do autor, em tamanho bolso, “Céu de origamis”, também policial e ambientado na zona sul do Rio.
O autor, com esse nome que parece estrangeiro, é um carioca, filósofo e psicólogo. Além disso, professor universitário que abandonou a carreira e dedicou-se de corpo e alma à ficção policial. Em todos os seus livros, pelo que li na contracapa, Espinosa é o detetive.

Assim levo minhas sessões de fisioterapia, exames médicos, ortopedista... lendo. Enquanto leio, o tempo passa, não me irrito e esqueço-me da dor até aquele momento que a fisioterapeuta, uma vascaína que deve odiar cliente flamenguista como eu, chega e começa os exercícios. Ai, sim. Verdadeiro Flamengo x Vasco onde sempre acabamos em empate e algumas risadas. Mônica, caso leia este post, fique sabendo que lhe acho um amor de torturadora e que sonho com o dia que esse negócio de capsulite torne-se apenas uma vaga lembrança na memória.

Não posso deixar de dizer que as meninas da fisioterapia gostam de música e sempre todos os pacientes da fila são premiados com excelente MPB e Jazz. Isso já valeria a longa espera na fila de atendimento por ordem de chegada


 Saiba mais:
"Ano sim, ano não, o escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza solta nesta época um novo caso do seu personagem mais famoso, o delegado Espinosa, para delírio dos fãs. "Céu de origamis" (Companhia das Letras), o oitavo romance protagonizado pelo policial mais respeitado de Copacabana, é o da vez. E vem com tudo para manter o vínculo de fidelidade do público com a mais sólida investida brasileira nos terrenos da literatura policial." O Globo.

Para ler a matéria completa clique abaixo: 
http://migre.me/47nOq

terça-feira, 22 de março de 2011

Domingo mais que perfeito: toró em Brasília, chuva de canivetes, dogs and cats!

por Clara Favilla
   Fotos Eduardo Balduíno


Amizade e amor começam pela admiração, do latim admiratione: 1 Ato de admirar. 2 Assombro, espanto, pasmo, surpresa. 3 Afeição. 4. Respeito. E podem acabar quando nada mais é espanto, pasmo, surpresa, afeição diante do outro.

Aí vem um chato e diz, também pode começar com implicâncias. O que é verdade, mas do avesso. Picuinhas demais já dizia minha avó, é amor recolhido.


Bem, como meus amigos sabem não só de trazer afetos escondidos. Por isso, proclamo aqui um dos mais fortes nascidos no reino do Twitter: minha admiração e amizade por Fred Navarro (@frednavarro) ,  jornalista e escritor pernambucano, que já morou em Brasília e agora mora em São Paulo. Autor do Dicionário do Nordeste, já esgotado, que traz 5 mil expressões da região e seus mais variados significados. Uma nova edição, bastante ampliada (12 mil expressões) deve ser lançada brevemente



Nosso encontro, o primeiro, foi no Cacahuá da 207 Sul, quando também pude conhecer a atriz e diretora , Mariana Botelho, da Companhia B de Teatro.  Bons ventos continuarão trazendo Fred à Brasília nos próximos meses. Maravilha!

                                 
Por coincidência, o querido Eduardo Badu havia trazido, para um café da manhã no Cacahuá com o pessoal do @cafeconversa e @cafeveneno,  o jornalista Leonardo Mota Neto (@cartapolis ) , que folheando o livro de Fred Navarro encontrou pelo menos 30 referências a seu avô, grande estudioso da fala e do folclore nordestino. Pena que a conversa com Fred foi bem rápida. Logo ele teve que sair rumo ao aeroporto. Mas nós ficamos lá nos deliciando com o livro! Foi uma manhã de domingo muito especial com toró e tudo.

Papo dos melhores e o café é Bourbon Vermelho
                                                                 
Mesa do @cafeveneno e @cafeconversa + convidados, no Cacahuá
Foto linda! Ricarte Freitas e a netinha bebê. 
                                                                   
Eduardo Badu e os amigos Ricarte e Leonardo Mota
                                                                                                       
 
Pausa para o próximo evento: Ricardo e Kátia na casa do Badu
                                                                       
Depois do café no Cacahuá, almoço do BSB Gril, 413 Sul
                                    
Fomos brindados com uma costela mais que perfeita
                                     
Ricardo @kassatti, filhos e nora
                                                                       

sábado, 12 de março de 2011

Aprendiz de blogueira - Outro capítulo não numerado (Rodapé que virou post)

por Ruth Scaff

Apesar de integrar o time fundador e todo poderoso de nosso querido Café&Veneno, não consigo passar todos os dias por aqui. Mas hoje passei pelo blog. Curiosa com o TT da Cris ( @crisflopes ) que disse ter falado de mim em seu novo post. Cris  é a nossa correspondente carioca que ainda nem conheço e já adoro tanto.Notem que desde que li o recado dela até agora já se passaram horas (dias¿) 

Com essa visita induzida aproveitei para ler os últimos posts e conheci a Taís. Comentei lá no postado dela e... digamos que resvalei na breguice ao me emocionar com toda aquela fofice sobre amizade.

Ruthita Maria tá precisando urgente deste livro!
                                                   
Mas, voltando ao post da Cris..Aí “não prestou” mesmo, como já ouvi alguns dizerem sem entender bem o que significava. Fiquei muito emocionada com o texto dela. Não só por ter citado meu nome e comentado meus poucos posts de um jeito carinhoso, mas sim por uma total identificação com seu conteúdo.
Um exemplo¿ Adoraria ter escrito os trechos a seguir pois na vida real eu faço igual que nem:

“... nem gosto de convidar. Quero que meus amigos cheguem espontaneamente. No máximo um telefonema dizendo: “Estou indo praí.” Assim é que convém. Você não se sente na obrigação de servir mil coisinhas, correr aqui e ali para buscar aquilo... Inventa na hora, pede uma pizza, compra cerveja, liga o som e faz a festa. Aliás, como eu poderia ter alguma coisa contra o povo desta cidade que amo tanto e escolhi (...)
Querem sabe mais? Amo o meu país e a multicultura. Porém, leiam bem, não desmereço nenhum outro que conheço. Quero é conhecer mais e mais, que tenho enormes desejos a serem cumpridos.”

Resolvi comentar e... Novamente “não prestou”, risos... Comecei a desfiar pieguices do fundo do baú e quase fui às lágrimas, hehe!
E fui naquele meu jeito de quem não quer nada ou de come-quieta. Escrevi, escrevi e não parei mais.
Daí não deu outra. Lembrei da querida chefa que estimula a galera a postar. E quando vê meus comentários muito grandes incentiva a transformação desses em posts, dado o tamanho do blá blá blá.
E diante do imenso comentário pensei: Ahá! Aqui tenho um post. Fiquei feliz. Contrlceei, abri um arquivo do Word e ...
Contrlveei. Nada.
Nadica de nada...
Perdi tudo.
Aí, não sei se me animei ou desanimei e comecei tudo do zero e acabou que ao invés de comentar o post da querida Cris, resolvi treinar um pouco mais o meu aprendizado por aqui. E foi graças a ela ( @crisflopes ) que escrevi   um novo capítulo do Aprendiz de Blogueira, desta vez não numerado.
Os incentivos estão surtindo efeito.

Nota da editora: Na verdade foram dois novos capítulos não numerados porque transformei a nota de rodapé de tão imensa em um outro post. 

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Coluna (ou “a difícil tarefa de manter a cara longe da lama”)


por Cesar Valente

A coluna é uma das partes mais importantes do corpo humano. Mantém a gente em pé, segura a cabeça erguida. Como a natureza é sábia, ela fez a coluna com algum movimento. Pode (e deve) curvar-se um pouco, sem qualquer problema. Esse movimento natural da coluna se chama jogo de cintura. Se a coluna ficasse completamente rígida, sem qualquer movimento, poderia quebrar facilmente, como um galho seco.
                                                    
Mas também não devemos ter a coluna muito mole, que dobre com qualquer ventinho. É perigoso curvar demais a coluna, porque a bunda fica muito exposta e a cabeça encosta na lama. Entre os políticos, isso tem acontecido muito.

Todo eleitor deveria ter um aparelhinho (que ainda não foi inventado) para medir o quanto a coluna dos políticos em quem pretende votar se curva. Quando a coluna fosse flexível demais, acenderia um aviso de perigo: “cuidado, esse aí fica de quatro com muita facilidade”.

Portanto, assim como a coluna dos homens de bem, esta coluna que hoje inicio terá jogo de cintura, mas não se curvará demais. Justamente porque não quero mostrar a bunda e não gosto de lama na cara. Sejam bem-vindos. Espero que voltem sempre.

Sábado, 13 de agosto de 2005


Nota do editor:  O texto acima  integra o livro De olho na capital - Os dois primeiros anos (capa acima), seleta de colunas publicadas por Cesar Valente  no Diário do Litoral ,o Diarinho, de agosto de 2005 a agosto de 2007.  A capital, no caso, não é Brasília, mas Florianópolis. E um segundo volume tem tudo pra pintar por aí. O livro foi lançado em 2010 e pode ser adquirido na rede de livrarias Cultura.

                                                    
O autor, amigo do Café & Veneno e dono de finíssimo humor, é jornalista floripolitano com atuação profissional tanto na prática quanto no ensino da reportagem, da edição, da produção gráfica, da assessoria de comunicação e da administração jornalística. Iniciou no jornalismo em 1970 e atuou em Florianópolis, Porto Alegre, Brasília, São Paulo e Itajaí.

Sobre o livro escreveu a jornalista e diretora do Diarinho, Samara Toth Vieira: "A política catarinense virada do avesso, com bom humor, ironia, alguma amargura e completa independência. O registro e um observador que (...) compartilha com seus leitores aquilo que consegue ver por baixo dos panos."

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Ela é carioca.. Dicas para dias de chuva.

por Cris Lopes
   Aos meninos que aderem ao Café & Veneno

Depois de uma bela e ensolarada manhã, o Rio muda de cara, entristece-se e chove: lágrimas de São Pedro. De repente, o céu resolve transformar a melancolia em chuva de verão. As gaivotas avisaram desde cedo em voos aparentemente desorientados, sempre em grupos. Voam baixo: haverá mudança de tempo.

 
Carioca adora praia, mas também suspira por modelitos inverno

Somos a turma das rasteirinhas, sapatilhas, vestidinhos de alças e, na moda, o chapéu Panamá... Isso para quem trabalha, pois tem a turma que, como eu, aposentou-se. E os desempregados que dividem o tempo entre o procurar emprego e uma boa praia? O que fazer em um dia de chuva? E os que trabalham na praia, os camelôs que fogem do choque de ordem, o que fazem? Vai-se o ganha-pão.

Se chover por alguns dias, acontece o de sempre, acreditem! No maior calor, a carioca coloca para fora botas e lenços charmosos, antecipando a moda de inverno, o tal, que raramente passa por aqui e exige no máximo um casaco jeans e ankle boots. Não esquecem os óculos de sol, os tais comprados em Miami e com a grife bem grande escrita na haste. Acho interessante. A mudança de vestimenta e comportamento é total.

 
Pedro Vasconcelos estudou primeiro piano e violão.  Teve grande influência do pai, o músico brasiliense Ricardo de Vasconcellos.  Em 1997, aos 15 anos, interessou-se pelo cavaquinho e pela música instrumental, a partir da convivência com o bandolinista Hamilton de Holanda e  de seu irmão violonista Fernando César, o " Dois de Ouro".  Estudou com os professores de cavaquinho e harmonia Rogério Caetano, Henrique Cazes, e Alencar 7 cordas.  Tem Licenciatura em Música, pela Universidade de Brasília.
 

Chuva aqui, no verão, não refresca. Ao contrário, traz um calor abafado, preguento. As pessoas mudam completamente de cara. Atrás de guarda chuvas e às vezes capas, tornam-se tristes. Também, pudera, como viver no Rio sem ver o sol, sem caminhar em trilhas sobre o mar, sem andar de bicicleta na ciclovia? Como ir ao trabalho com roupinha leve e sandálias?

Barzinho com mesa do lado de fora, fica sem uso. Todos procuram os cantos fechados e fogem da chuva. Quem fuma arrisca-se, tem que ir lá fora fumar, mas isso é detalhe.Tenho meus truques: tuito com amigos queridos, ponho a leitura em dia, durmo mais do que a cama permite e ouço música, muita música. No momento ando apaixonada pelo CD Aquário - Primeiro, com belas composições de Pedro Vasconcellos, músico de Brasília, terra de muita música e do Clube do Choro. Aproveito este momento para declarar, mais uma vez, meu amor a Brasília.
A chuva não para. Voltarei ao meu livro e recomendo: leiam “Equador”, de Miguel Sousa Tavares. Vão adorar.

Saiba mais:

Equador é o primeiro romance do escritor e jornalista português Miguel Souza Tavares. Foi publicado em 2003 com grande repercussão dentro e fora de Portugal. A trama se passa no início do século XX , quando Luís Bernardo é chamado pelo rei Dom Carlos  e viu-se diante do desafio de abandonar a vida despreocupada que levava em Lisboa para ocupar o cargo de governador na Ilha de São Tomé. O desempenho das novas funções o envolve em uma rede de conflitos de interesse com a metrópole.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cabeça vazia é oficina do diabo ...

Já dizia minha avó Rosinha.


Por Tem Roupa na Corda (eta codinome!!!)

Seu problema está entre dar ou não dar pro maridão da " amiga" .  Você é a muy amiga da quase corna, né?
Se é para você ter um problemão ceda seu corpitcho e faça bom proveito. Solte a franga louca que existe dentro de você.
Quem não leu, corra pra comprar. Mas não é pra deixar bonitinho, fechadinho na estante, não, viu! É pra ler e se refinar intelectualmente.
Barthes é do tempo que fumar e blazer xadrez eram chiques.Mas o que escreveu é eterno!

Se é pra ficar no platônico trate de ter uma ideia ecologicamente correta. sabe aquele monte de roupa amontoada na área de servço? Pois bem. Lave tudo no tanque, fofa. Assim você não vai ter tempo de pensar em mais nada que não seja tratar os " unheiros" e das micoses adquiridas nesse ato de limpeza da alma.
Como sou uma pessoa boa, de índole boa, sugiro que entre uma trouxa de roupa e outra leia o livro " Fragmentos de um discurso Amoroso"  do Roland Barthes. Pode comprar que  é fininho. Tá?


Nota da Editora:
  • Achei tão bom o comentário do(a) "Tem Roupa na Corda"  no post "Consultório Sentimental: Entre a Cruz e a Espada!" que resolvi transformá-lo em post. Assim ganha maior visibilidade e também comentários.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Mistérios da Califórnia ...

 por Memélia Moreira

Polk County. Sim, nem nos mais insensatos momentos pensei em morar em Polk County, uma subdivisão administrativa da pequena cidade de Kissimmee (os brasileiros costumam dizer “Kiss Me”, mas a sílaba tônica é no “ssi”), cidade com nome indígena, carregada da história recente dos EUA, onde aconteceu uma das últimas batalhas entre índios e os temíveis “Blue Soldiers”, aquele exército vestido de azul que na falta de inimigo externo, devastava os povos indígenas dos Estados Unidos. O herói da batalha foi o chefe Osceola, que também virou nome de county.
Mas quando nos mudamos, não simpatizei com o nome. Se fosse “Polka County”, pensava, teria mais sentido pra mim, afinal de contas danço todos os rítmos e polka tem sabor daquilo que a nova geração chama de “vintage”. Mas Polk não me dizia nada, e ficava incomodada cada vez que via a placa indicando estar perto de casa


                                          Hoje

                                           Ontem
Inquieta por natureza,  fui folhear o Google. Folhear? Caramba! Sou antiga. Ou melhor, sou aquilo que a garotada chama de vintage. Não me chamem de "senior". Muito menos "pessoa da terceira idade". Se me disserem que estou "na melhor idade", chamo minhas tropas, subo nas tamancas e enquanto rodo a baiana, chuto o pau da barraca. Vintage, ok? Voltemos ao Google.
E Google, esse oráculo da era digital, me diz então que Polk, James Knox Polk, foi governador do Tennessee. Sim, e daí? Daí que foi no Tennessee (outro nome indígena) que nasceu o bluegrass.  Sem contar que Nashville que fica no Tennesseee, é a capital da country music. Comecei a ver Polk com menos preconceito.
(Aqui, um badalado exemplo do bluegrass, que é também um desafio de banjos)
Minha relação com Polk County passou então por uma sensível melhora. Google disse também que James Knox Polk, além de ter sido governador, deu nome ao Fort Knox, que guarda o "ouro de Moscou". Ih, me confundi. Não é o ouro de Moscou. É o ouro dos EUA.  Se é que ainda tem*.  E mais, Polk chegou a ser presidente dos Estados Unidos. Grandes coisas. Geoge W. Bush também conseguiu, pensei.


 James Knox Polk, décimo primeiro presidente americano (1845-49)
Leio e leio muito. Se estivesse escrevendo uma crônica erótica, diria que leio com volúpia. E, aproveito que moro aqui para ler a História do país. De preferência a ocupação do oeste, que tanto me fascina.
Sou apaixonada pelas histórias do oeste americano, pelos cowboys, os duelos. Uma paixão que vem de longe. Culpa de Hollywood, Alan Ladd, Lee Van Cleef, Roy Rogers. Culpa, principalmente, de Clint Eastwood, seu olhar gélido e a pontaria precisa. E nem toda uma vida dedicada à causa indígena foi suficiente para me posicionar contra John Wayne, um dos mitos da minha infância. E ele matava todos. Era Navajo, Sioux, Cheyenne, Comanches, Apaches. Não sobrava nenhum índio. Garanto que se ele fizesse o papel de General Custer, teria sobrevivido à batalha de Little Big Horn e teria matado Crazy Horse. Foi uma sorte danada Touro Sentado não ter cruzado com John Wayne.


Nessa leituras, encontrei "Blood and Thunder" um épico do oeste americano, como está escrito na capa. Quase não compro, exatamente por causa da capa. Brega. Parecia história em quadrinho de segunda categoria. Mas, o autor, Hampton Sides, é professor de História, formado pela Universidade de Yale. Bom, se é professor, merece meu respeito. Comprei. 
 O livro conta a história de Kit Carson, um mateiro que viveu no século XIX. Mateiros são profissionais que saem abrindo picadas na mata, para as frentes de expansão. Pessoas que jamais chegam à ribalta da História dos povos mas, sem eles, nenhum país se desenvolve. E muito menos assiste o tal  "espetáculo do crescimento".
Europeu e semi-analfabeto, Kit Carson é um dos principais responsáveis pelo mapa atual dos EUA. Sem ele, o país seria mais magro (e, quem sabe, a população americana dos séculos XX/XXI menos gorda). Mas Carson é apenas pretexto de Hampton Sides para contar sobre o assalto ao México promovido pelos Estados Unidos. Um assalto sem nenhum pudor. Grilagem de terra mesmo e que terminou acrescentando mais domínios ao país do gringos. E foi então que ele apareceu. 

 Kit Carson, o mateiro (derrubador de florestas)


Era lá pela página 30. Advinhem quem veio tomar café comigo na varanda enquanto eu lia? James K. Polk. De novo? O que é que esse cara quer comigo, me perguntei. Nadinha, claro. Afinal de contas, ele morreu em 1849, mortinho 98 anos antes de eu nascer.
O tal Polk então se revelou por inteiro. Ele era presidente dos EUA quando a Califórnia foi roubada do México. E quando a guerra entre os dois países se instaou ele foi logo dizendo ao presidente mexicano que "duela a quién duela" frase usada mais de século depois por um certo presidente brasileiro super colorido) a Califórnia seria mais uma estrela na bandeira dos Estados Unidos. E saíu armado com todo o arsenal disponível na época, matando homem, mulher, criança, quase todos índios. Era do Partido Democrata. Se fosse do republicano, não sobrava pedra sobre pedra no deserto de Mojave.
Polk queria porque queria a Califórnia. De quebra veio o Novo México. Ele também tomou Idaho e Oregon do Canadá. O que tinha de magro tinha de devastador e terminou virando nome de county. Jamais chegou a ser cidade e, muito menos, Estado. Bem feito!
Foi então que parei para refletir. Que mistério tem a Califórnia para ser o sonho do presidente Polk e provocar guerra no século XIX;  para ser a terra prometida das hordas de desempregados do crash de 1929, história soberbamente contada em "As Vinhas da Ira", de John Steinbeck; para ser odiada pelos puritanos, em particular e caretas, em geral, ao ponto de acreditarem ser aquela a Sodoma e Gomorra dos tempos modernos e, ao mesmo tempo o sonho da minha geração no final dos anos 60, quando popularizou os "Flower Children", que passaram à História sob o pseudônimo de "hippies"?  John Lennon ainda vivia enquanto Gilberto Gil decretava a alto e bom som que o sonho tinha acabado ("e quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou").
O sonho californiano é tão forte que até virou nome de música. Ou será que já nos esquecemos dos The Mamas & Papas" com seu "California Dreamin".
Segue aí uma canja para os desmemoriados.
Dizem inclusive que se Caimmi, o Dorival, tivesse armado a rede numa praia de Malibu, onde Marilyn Monroe desfilava seu corpo de musa, teria escrito "O quê que a Califórnia tem" e não "O quê que a baiana tem". Não sei. Mas, por via das dúvidas, Carmén Miranda saíu cantando essa música pelos Estados Unidos afora, vestida de baiana. E sabem onde ela morava? Na Califórnia, claro. Mas como escapar da Califórnia? Jack Kerouak, por exemplo, seria apenas mais um canadense falando um francês do século XVII se, num momento de lúcida alucinação, não tivesse pegado o caminho da Califórnia. E nós jamais teríamos uma obra-prima chamada "On te Road". 
Foram tantas as perguntas que "Blood and Thunder" me provocaram.
Será que o fascínio da Califórnia é a "Falha de San Andreas", aquela  famosa formação geológica que uma dia, num terremoto qualquer vai descolar a Califórnia do continente americano transformando-a num verdadeira jangada de pedra (obrigada, Saramago)? Será o vale de Napa, com seu vinho cada dia mais aprimorado? Seus pêssegos dulcíssimos? Ou as luzes de Beverly Hills piscando em celulóide daquela eterna Hollywood onde todas as extravagâncias foram permitidas? Talvez as ondas do Pacífico que atraem surfistas e chineses antes com sedas, hoje com quinquilharias. Não sei.
Ao final das 402 páginas de "Blood and Thunder", depois de acompanhar Kit Carson que evitou Los Angeles porque o cavalo estava cansado e ele queria logo chegar a Santa Fé e beijar sua mulher a quem não via por 20 meses, não consegui sequer arranhar um dos segredos da Califórnia. Nem eu, nem o poderoso Arnold Schwarzenegger que saíu das telas para ser governador. Deixou o estado quebrado e, pela primeira vez, no final do filme, seu personagem não disse "I will be back baby". Ufa! Sorte nossa que gostamos da Califórnia.
Não sei qual o mistério daquele lugar. Mas, de repente, pego a estrada numa Harley Davidson ouvindo Lulu Santos.
P.S. Há mais de 40 anos ninguém consegue ver um lingote do Fort Knox. Até as visitas turísticas foram suspensas. Coincide com o tempo em que Goldfinger planejou assaltar o forte. ou seja, James Bond não deu conta do recado. Ah, Hollywood fica aqui bem perto.