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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sobre indignações cínicas e serôdias

 Por Aetano Lima


1. Um dia antes do artigo do Vladimir Safatle (Folha de 02/04/2012), eu escrevi no Twitter: Marco Feliciano é um marco - um marco do avanço do fideísmo.

2. Por que o fideísmo avança? Onde ele avança? A resposta a estas questões aponta para uma omissão gravíssima.

3. Temos quase VINTE ANOS de social-democracia no poder e nenhuma mudança significativa em termos educacionais. Como o fideísmo alimenta-se também de ignorância, uma parte dos frutos que estamos colhendo agora é decorrência dessa grave negligência.

4. Não bastasse isso, PT e PSDB passaram, cada um a seu modo, a dar cada vez mais espaço à bancada fideísta (católica ou evangélica), já que eram seus devedores. Com efeito, na busca desesperada por votos, aqueles partidos, durante as últimas eleições, deram-se à lavagem de pés de padres e pastores e, como incoerência nunca foi um problema para eles, adotaram a retórica fideísta, em detrimento de suas bandeiras históricas.

5. Agora os tentáculos do fideísmo começam a incomodar, e os intelectuais - que aqui na nossa terrinha só preveem o passado - despertaram para esse risco, mas, estranhamente, com uma certa resignação.

6. Pois bem, na próxima eleição, o jogo repetir-se-á, a bancada da fé vai aumentar e a ameaça de retrocesso idem. Preparem seus ouvidos para as indignações cínicas e serôdias.

Aetano @Aetano " Um anarquista bem-comportado." É graduado em Odontologia e Direito.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Desassombro dos Ignorantes ou A Coragem dos Ingênuos

por Laerte Rimoli

"Por que me arrasto a teus pés, por que me dou tanto assim?"


Era algum dia do primeiro semestre de 1981. 
O país estava em sobressalto com a explosão da bomba do Riocentro no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário. O sargento morreu e o capitão Wilson Luiz Chaves Machado, que estava ao seu lado num fusca, ficou gravemente ferido. Aos 25 anos, magro e de barba rala, eu era repórter da Revista Veja e cobria o Palácio do Planalto. 

O assunto mobilizou por meses a imprensa e deixou exposta a guerra fratricida entre os generais Octávio Aguiar de Medeiros, do SNI, e Golbery do Couto e Silva, do Gabinete Civil. Medeiros, linha-dura, queria por uma pedra sobre o assunto, o famoso “abafa o caso”. Golbery, que vislumbrava o fim do regime militar, desejava esclarecer o episódio. O ambiente ficou carregado em Brasília e o Palácio do Planalto pequeno para os dois generais (Golbery acabou caindo).

O presidente Figueiredo viajou para Patos, sertão paraibano. Lá fui eu. Calor senegalês.
Chegamos por volta das 15:00. Enquanto os repórteres de jornal, que cobriam o dia-
a-dia, correram ao posto dos Correios e Telégrafos, em busca de um telex (era assim
que se passava matéria naquela época, picotando uma fita frágil) fui atrás do general
Medeiros. Soube que ele estava no clube da cidade. Saltei o muro (não era muito alto) e
me materializei na frente do Chefe do SNI , do general Danilo Venturini e do secretário
particular da presidência da República, Heitor de Aquino.

Laerte e Medeiros. Charge de Tercio Rimoli

A princípio surpreso com minha abrupta aparição, Medeiros com um copo alto de
whisky (debaixo daquele solão), os indefectíveis óculos escuros dos arapongas,
de calção e sem camisa, logo relaxou e desanuviou o clima. Perguntou como
trabalhávamos, como era nossa relação com as repórteres, queria saber quem namorava
quem, confessou sua predileção por uma coleguinha, enfim, demonstrou curiosidade
sobre nossa atividade. Sentei-me no degrau da piscina, tirei os sapatos, molhei os pés
e o generalzão ficou num patamar acima. 

Quando senti que o homem tava maduro, sapequei: “Ministro, como fica o caso Riocentro? É verdade que o governo resolveu, intramuros, que o assunto morreu?” “Não gosto da expressão intramuros”, grunhiu ele. Eu troco por “a quatro paredes”. Melhor assim. “O monstro” *, como era conhecido na caserna, já não estava tão amistoso. 

Fiz outra investida e ele resmungou qualquer coisa. Aí a juventude se manifestou. Agarrei-me à perna do general e cantei: “Por que me arrasto aos seus pés, por que me dou tanto assim...”??? Ele tentava se desvencilhar. A cena, patética e inusitada, provocou risos em todos nós. Fui expulso do local e passei a ter encontros periódicos com o general no restrito quarto andar do Palácio, espaço vedado a repórteres. Frases curtas e secas que eram repassadas ao editor, o brilhante Elio Gaspari. Escute aqui Desabafo (Roberto Carlos)

Meu esforço se prestava muito mais como orientação para as matérias sobre a
briga do poder do que propriamente em declarações à Veja. Não publiquei muita coisa
(o cúmulo do antijornalismo) mas confesso: o sisudo general se divertiu bastante com
minha impertinência. E eu com a dureza forjada na caserna. Lembrarei de outras farras
que fiz com esses generais.

* Vocês se lembram que houve tempo em que acusavam os militares de comer
criancinha, neh?

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Coluna (ou “a difícil tarefa de manter a cara longe da lama”)


por Cesar Valente

A coluna é uma das partes mais importantes do corpo humano. Mantém a gente em pé, segura a cabeça erguida. Como a natureza é sábia, ela fez a coluna com algum movimento. Pode (e deve) curvar-se um pouco, sem qualquer problema. Esse movimento natural da coluna se chama jogo de cintura. Se a coluna ficasse completamente rígida, sem qualquer movimento, poderia quebrar facilmente, como um galho seco.
                                                    
Mas também não devemos ter a coluna muito mole, que dobre com qualquer ventinho. É perigoso curvar demais a coluna, porque a bunda fica muito exposta e a cabeça encosta na lama. Entre os políticos, isso tem acontecido muito.

Todo eleitor deveria ter um aparelhinho (que ainda não foi inventado) para medir o quanto a coluna dos políticos em quem pretende votar se curva. Quando a coluna fosse flexível demais, acenderia um aviso de perigo: “cuidado, esse aí fica de quatro com muita facilidade”.

Portanto, assim como a coluna dos homens de bem, esta coluna que hoje inicio terá jogo de cintura, mas não se curvará demais. Justamente porque não quero mostrar a bunda e não gosto de lama na cara. Sejam bem-vindos. Espero que voltem sempre.

Sábado, 13 de agosto de 2005


Nota do editor:  O texto acima  integra o livro De olho na capital - Os dois primeiros anos (capa acima), seleta de colunas publicadas por Cesar Valente  no Diário do Litoral ,o Diarinho, de agosto de 2005 a agosto de 2007.  A capital, no caso, não é Brasília, mas Florianópolis. E um segundo volume tem tudo pra pintar por aí. O livro foi lançado em 2010 e pode ser adquirido na rede de livrarias Cultura.

                                                    
O autor, amigo do Café & Veneno e dono de finíssimo humor, é jornalista floripolitano com atuação profissional tanto na prática quanto no ensino da reportagem, da edição, da produção gráfica, da assessoria de comunicação e da administração jornalística. Iniciou no jornalismo em 1970 e atuou em Florianópolis, Porto Alegre, Brasília, São Paulo e Itajaí.

Sobre o livro escreveu a jornalista e diretora do Diarinho, Samara Toth Vieira: "A política catarinense virada do avesso, com bom humor, ironia, alguma amargura e completa independência. O registro e um observador que (...) compartilha com seus leitores aquilo que consegue ver por baixo dos panos."

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Nosso blog também é política: Abaixo a fixação do Salário Mínimo por Decreto

Por Roberto Freire (PPS/SP)

Defendemos a fixação do salário mínimo em R$ 600, porque este valor garantiria ganhos reais para os trabalhadores, frente ao processo inflacionário em curso, ao privilegiar o trabalho como efetivo gerador de riqueza e dignidade do ser humano. Infelizmente o Congresso curvou-se a lógica do governo.

O que não aceitaremos é que o reajuste do piso dos trabalhadores seja feito por decreto até o ano de 2015, como prevê o projeto encaminhado pelo governo. É isso que o PL, de nº 382/11, traz embutido em seu artigo 3°, visando poupar a presidente Dilma Rousseff de negociar com o Legislativo e com as centrais sindicais, com os aposentados, com a cidadania enfim a correção do piso, até o final de seu mandato.

Como não se pode definir salário mínimo por decreto, como fazem as ditaduras, mas por Projeto de Lei, como fica claríssimo no inciso IV do artigo 7º de nossa Constituição, esse Projeto proposto pelo governo Dilma revela, de forma cristalina, que entendimento tem do processo democrático. Afinal, retirar o poder do Congresso de legislar é um perigoso sinal.

Como é que esse governo pretende mudar por projeto o que é constitucional? Será isso um cacoete autoritário a la Chávez, com quem o PT há muito tempo flerta? Não nos esqueçamos que o presidente da Venezuela, por delegação do Congresso, conseguiu poderes para mandar e desmandar sozinho no país. É essa a proposta de democracia do governo Dilma?

NR: às 20h20 desta terça-feira, 22/02, o deputado Roberto Freire tuitou:  Mobilização contra afronta do Governo Dilma  à Constituição fFderal que determina fixação do Salário Mínimo por lei, cresce no país. No Senado temos bons lideres pró #abaixodecreto

Saiba mais:
O governo aprovou nesta terça-feira urgência para a votação do projeto que reajusta o salário mínimo de R$ 545 no Senado.Isso significa que o texto vai ser analisado diretamente pelo plenário da Casa nesta quarta-feira, sem a necessidade de passar pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) --o que atrasaria a análise do texto.
Os governistas conseguiram o apoio da maioria da Casa para aprovar o pedido de urgência no plenário, mas a votação foi simbólica (sem registro no painel de votação).
A ordem da presidente Dilma Rousseff é votar o projeto sem mudanças no texto aprovado pela Câmara para que possa sancioná-lo no final de fevereiro. O governo quer fazer vigorar o novo valor do salário mínimo em março.
A base de apoio da presidente do Senado está tranquila para a aprovação do valor proposto pelo governo. Líderes governistas calculam que vão ter entre 54 e 57 votos dos aliados. São necessários apenas 41 votos para a aprovação do projeto.
A oposição reconhece que será derrotada diante da ampla maioria governista na Casa. "Esse é o jogo, faz parte da dinâmica do parlamento", disse o líder do PSDB, senador Álvaro Dias (PR). A oposição protestou contra a aprovação da urgência.(Fonte: Folha On Line)