sexta-feira, 22 de março de 2013

Canção do Amor Tranquilo


Canção do Amor Tranquilo

Encosto o meu rosto
No teu ombro moreno
Imensa é a solidão
Mas o mundo é pequeno
Por acaso encontrei
Mesmo em Roma ou Paris
Amigos do Brasil
Só não achei quem quis
A alma desejada
Em perfeita constância
Em anos solitários
Obsessão da infância
Aceito o destino sem queixas
Estou sereno
Encosto o meu rosto
No teu ombro moreno

Na tarde do dia 15 de outubro de 2007, perdemos um mestre de excepcional valor: o poeta, crítico literário, dramaturgo, jornalísta e professor Cassiano Nunes
"Quando pisou no aeroporto do Galeão (RJ) – vindo de Nova York –, Cassiano Nunes Botica voltava ao Brasil depois de cerca de quatro anos de estudos na Alemanha e nos Estados Unidos. Não fazia idéia de onde trabalharia. Largou o emprego de professor de literatura brasileira na Universidade de Nova York para retornar ao país natal. Ao longe, avistou o amigo que entrelaçaria sua história à de Brasília. O senhor magro, calvo, de óculos era o poeta Carlos Drummond de Andrade. Ao escutar o pedido do amigo por um emprego, Drummond pediu calma. Duas semanas depois, o escritor mineiro o indicaria para lecionar na Universidade de Brasília (UnB), no Instituto de Letras (IL). Era 1966 e Cassiano permaneceria na instituição até 1991. Passados 38 anos, o jornal UnB Notícias homenageia, na série Personalidade, o poeta, crítico, professor, ensaísta e Doutor Honoris Causa (título concedido em 2002). Ou como ele mesmo se chama – o "velho cão" do Cerrado.

Em Brasília, além da própria produção literária, Cassiano Nunes – formado em Letras Anglo-Germânicas e Contabilidade (por pressão do pai) – é referência na formação de vários poetas, entre eles João Carlos Taveira, Climério Ferreira e Gustavo Dourado. Pela contribuição para a cidade, tornou-se cidadão honorário de Brasília em 2001. "Ele sempre nos promoveu e chegou a montar exposição em Paris só com poetas brasilienses", afirma o poeta e jornalista Guido Heleno, ex-aluno de Cassiano.

Um dos maiores estudiosos da vida e da obra do escritor Monteiro Lobato, Cassiano Nunes vive em meio à biblioteca que ocupa grande parte de sua casa na 711 Sul, em Brasília. Amigo de Mário e Oswald de Andrade, Antônio Cândido e Patrícia Galvão (Pagu), ele só começou a escrever poesias depois dos 40 anos – até 2002, publicou 63 obras, entre poesias, ensaios, artigos e críticas. No último dia 4 de maio, lançou sua mais recente obra: Literatura e Vida, uma coletânea de artigos.

http://www.gustavodourado.com.br/cassiano2.jpg

Amiga de longa data, a professora da UnB Maria Jesus Evangelista, conhecida como Majú, revela como é o processo criativo de Cassiano: "Ele não faz sequer correções nos versos. A inspiração vem e o poema já sai com a cara dele". Sua poesia é adepta do estilo livre, com ritmo simples parecido com o de Manuel Bandeira. Modernista e contemporâneo, segundo Majú, seus poemas apresentam incursões pelo simbolismo impressionista. "É lírica, mas não piegas. Ele é um virtuose do verbo livre", detalha.

Fonte: Revista da UnB.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cleusinha, fim de semana com Deus e o mundo, menos com quem ela quis

Cleusinha não gosta de passar recibo. Quando acorda triste, nada de sair de qualquer jeito. Banho demorado, perfume e café forte fazem parte de sua receita pra não sair trôpega de casa. Chefe nenhum quer, logo de manhã, nas reuniões de pauta,  zumbi, mulambo, gente de olheira sem ter lido os jornais e revistas de fim de semana.

Não é repórter, é uma faz-tudo na redação. Tipo secretária de luxo, assessora para assuntos profissionais, pessoais e aleatórios. Fala inglês, arranha francês e tem um portunhol muito eloquente que está aprumando com a cubana que começou esses dias a trabalhar na sucursal de Brasília.

Participa das reuniões de pauta, anota tudo e até dá palpites. Quando alguém quer medir a temperatura de determinado fato chama a Cleusinha. Ela comenta as roupas da Dilma, sabe que a rainha da Inglaterra foi internada com problemas estomacais, quem tá saindo com quem. Já nos primeiros capítulos diz se uma novela emplaca ou não. E avalia como ninguém os programas eleitorais. Se você não sabe, já leu muitas colunas reproduzindo comentários inteiros da Cleusinha sobre política e economia. Ela é a voz do povo que refresca certezas enferrujadas e coloca por terra, muitas vezes, trabalho de um dia ouvindo especialistas, 

Cleusinha é a memória da redação e principalmente do chefe por quem tem devoção. Sabe a senha dele no banco. Faz retiradas no caixa automático, faz pagamentos e depois dessas saídas é capaz de chegar com uma gravata nova pra ele. Bem mais bonita do que a jararaca da mulher comprou na Itália. E diz isso bem alto pra quem quiser ouvir, inclusive o chefe. 

Sabe nada de vinho. Mas o chefe só compra o que ela degusta e aprova.A boca da  Cleusinha nasceu pras delícias dessa vida. E vai logo desfilando características que deixam os entendidos de cabelos em pé e mudos. "Este vinho compra não chefe, dá  um travo no céu da boca e desce pesado. É daqueles que dão dor de cabeça. Este outro só é bom pra quem gosta de cravo, canela. E este tá parecendo a cidra que minha mãe compra pra fazer ponche" 

Mas vou parar de descrever a Cleusinha e ir ao que interessa. A fofa chegou, pela manhã, à  redação, de cara boa como sempre, mas meio borocoxô. Não trouxe pão-de-queijo pra ninguém e o pior, começou  cantarolar música da tia Rita Lee : "Kiss me baby, kiss me baby, kiss me/ Pena que você não me kiss/Não me suicidei por um triz/ Ai de mim que sou assim!" Um dos fotógrafos gritou lá do fundo redação: " Ai, ai, Cleusinha, desembucha. Diz aí o que não deu certo no fim de semana". E dela ouviu um sonoro: "Vai te catar cara!" 

 Ihhhhhh, melhor não cutucar a onça com vara curta!

Depois da reunião de pauta, com o dia já encaminhado, pausa para um café. Cleusinha chega ,me dá um beijinho na orelha e suspira. Fico logo sabendo que no fim de semana  ela encontrou Deus e o mundo. Só não encontrou quem quis. Faz uma carinha de conformação e vai cuidar da vida que não é de ficar pensando na morte da bezerra. Sai de fininho pra encurtar a conversa. 

E eu, ali esvaziando devagarinho a Xícara de café,  me lembro do poema do querido professor Cassiano Nunes: Por acaso encontrei / Mesmo em Roma ou Paris/ Amigos do Brasil / Só não achei quem quis / A alma desejada / Em perfeita constância / Em anos solitários/ Obsessão da infância / Aceito meu destino sem queixas / Estou sereno / Encosto o meu rosto / No teu ombro moreno / Imensa é a solidão / Mas o mundo é pequeno."

Essa Cleusinha é mesmo da pá virada. Me faz rir, me faz chorar. 

Mal me recupero dos versos de Cassiano e a danadinha passa por mim de novo e de novo cantarolando tia Rita Lee: "Quando eu me sinto um pouco rejeitada/ Me dá um nó na garganta / Choro até secar a alma de toda mágoa / Depois eu passo pra outra/ Como mutante/ No fundo sempre sozinho/ Seguindo o meu caminho/ Ai de mim que sou romântica!".

Faz uma paradinha e diz que vai dar uma fugida. Acabou de quebrar duas unhas. E a amiga da copa, dublê de manicure, lhe dará atendimento de urgência, na sala ao lado.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Cleusinha - Nem aí para a sucessão papal

Por Clara Favilla

Cleusinha tá nem aí para a sucessão papal. Nem acha nem desacha se o Sumo Pontífice (gosta de se referir a ele assim) deveria ter renunciado ou não. Cada um sabe de si é seu ditado preferido. Não julga e não quer ser julgada. Não digo que tem a inocência das crianças como se costuma dizer, mas tem uma delicadeza desconcertante até quando fala alto ou gargalha.

As amigas dizem que ela precisa dar um trato no cabelo, mas ela gosta deles assim, sempre em briga com o vento, com a chuva, com o tempo seco de Brasília, com o travesseiro. Cleusinha começou três faculdades e abandonou todas: por falta de paciência, de dinheiro ou tédio. Nem tem 30 anos. Aos 25 já havia largado e sido largada pelo marido. Diz que graças a Deus ainda não teve filho. Graças a Deus e à sorte porque pelo jeito que fala nem sei se teve ou tem os cuidados que lhe garantam nenhum bebê à vista agarrado-lhe às pernas.

Gárgula, Notre Dame - Foto de Michael Reeve , Wikipédia Commons

Diz que tem saudades do ex-marido, mas não de ter sido casada. Ele queria refiná-la: que rebolasse menos quando dançasse, que falasse menos, risse menos quando estivesse entre homens. Fosse menos debochada, insolente. Quando toca no assunto, não demora a se exasperar. Começa falando baixo, mas de repente puxa e repuxa nervosa as pontas dos cabelo, olha pro teto até que explode num: "Porra, não sei o que ele queria de mim. Se me queria de outro jeito porque se casou comigo?"

De tanto o marido querer reformá-la, ajustá-la ao próprio figurino e o da família, Cleusinha começou também a construir implicâncias contra ele por isso e por aquilo. Precisa levantar tão cedo, tomar banho de mais de meia hora, querer tanto café e sempre passado de novo quando está em casa?  E pra que tantos livros, revistas e jornais?

O marido inventou  férias em Paris e Roma. Trouxe-lhe guias e dicas de amigos para ela saber onde estava pisando e ele não ter que ficar lhe explicando tudo o tempo todo.  Ela não leu nenhum e fingiu de morta quando ele lhe repassava irritado alguma malditas pendantes dicas. Mas foi ela que teve paciência de ficar na Notre Dame até que os olhos se acostumassem com a falta de claridade. Até que alma voasse por cima das centenas de cabeças de turistas e alcançasse as cores dos vitrais mais altos. Foi ela que subiu centenas de degraus para ver o que poderia ver lá de cima e ficou sabendo tudo sobre gárgulas e o passado escondido sobre a base da catedral.

Cleusinha é sortuda. Gosta, como eu já disse, de aprender de ouvido, desde que possa decidir quando e sobre o que prestar atenção. Não é que encontrou lá em cima um casal brasileiro muito simpático que lhe explicou tudinho o que queria e o que nem queria saber? E ainda lhe convidou pra almoçar, o que ela polidamente recusou porque, embora não pareça, é bem tímida.  Depois de um passeio pelas jardins da catedral sem entender porque ela é muito mais bonita de costas que de frente,  procurou e não encontrou o marido que havia visto pela última vez... quando mesmo?

Entraram, sim,  juntos na catedral e  ele, logo em seguida,  irritado por alguma coisa que ela nem captou direito, distanciou-se dela até desaparecer na penumbra. Ela achou que se andasse pra frente, se fosse até o altar, se subisse as escadas até o campanário, acabaria por encontrá-lo. Não só não o encontrou, como até se esqueceu dele alguns minutos depois. Havia entrado naquele estado, velho conhecido seu, de maravilhamento total.

Ao chegar bem perto da Madona de Paris fez os três pedidos de praxe, quando se entra pela primeira vez em uma igreja. No caso dela, é sempre um que repete três vezes: saúde, saúde e saúde. Agora estava ali, sozinha, sem saber pra onde ir.  Fechou os olhos para pensar um pouco antes de decidir  e ao abri-los lá estava o casal fofinho recém conhecido, de bobeira,  conferindo a paisagem refletida no Sena. Como recusar de novo o convite para almoçar?  O marido certamente não se deu ao trabalho de procurá-la por muito tempo. Sempre optava pelo óbvio, pelo mais fácil. Já deveria estar no hotel. Então, que a esperasse.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Cleusinha e Jorjão, feitos um para o outro

Por Clara Favilla

Quando a campainha da porta da frente tocou, ela estava completamente desprevenida: de meias porque tem pés frios, só de calcinha e uma camiseta desbeiçada. Cabelos que nem ninho de gatos. Não tinha tirado muito bem a maquiagem da noite anterior. Olheiras. Havia escovado os dentes? Não se lembrava. Havia acordado no maior bode. 

De novo a campainha estridente. E naquele apartamento ainda não mandara instalar o maldito do olho mágico. Fingiu que não era com ela e foi pra cozinha tomar  um copo d'água. Mas a campainha já disparava novamente. Quem fosse, lá fora, não desistiria fácil. 


Com um fio de voz perguntou quem era. "Sou eu", foi a resposta.
Sou eu quem, perguntou ela, de novo,  já com as mãos suando frio.
Um sonoro porra ecoou pelo corredor.
 _ Porra, sou eu. Não reconhece, minha voz?"

Cleusinha coloca as mãos na cabeça: 

_ Puta que o pariu! O que faz você a essa hora de manhã  na minha porta . Morreu alguém? O que você quer?
_ O que eu quero?  Tem graça uma pergunta dessa?
_ Não vou abrir a porta. Tô descabelada, nem tomei banho, nem café, nem nada... Nem  me lembro do que aconteceu entre a gente na última vez que nos vimos. Nem sei como você chegou até o meu andar se nem a chave da portaria tem.
_  Esqueceu que o prédio tá em reforma? Que a portaria tá aberta? A última vez que nos vimos não foi no século passado, nem no mês passado. Foi ontem à tarde.  E tô me lixando se você se lembra ou não.  Eu me lembro e foi bom. Pra mim e pra você. E quero mais.
_ Cara, vai embora  e avise com pelo menos uma hora de antecedência quando quiser passar por aqui novamente. Não tô a sua disposição.

A vizinha do lado abre a porta. É hora de levar o cachorro cego pra passear. Latidos finos, nervosos.  Cleusinha se afoba. A vizinha não é flor que se cheire. Já implicou de mulher solteira, ela, ter alugado o apartamento ali, parede meia. Que diabo! Se adivinhasse essa aporrinhação teria dado o fora de casa mais cedo. Resolve, enfim, abrir a porta.

_ Já tava contando até três. Ainda bem que abriu, se não abrisse nunca, nunquinha ia mais me ver.
_ E eu tô preocupada com isso? Nem sei se teu nome é mesmo Jorjão, Jorge. Jorjinho. Nem vi tua carteira de identidade. Nem sei teu endereço, se trabalha onde mesmo que diz. Nem com quantas anda.
_ Mulher, corre que tô apressado. Preciso de café e cafuné.
_ Mas do que você, Senhor Encardido, precisa primeiro, indaga com a voz já incapaz de sustentar qualquer braveza.
_  E tem isso de primeiro e segundo? Quero tudo junto.
E Jorjão, o Encardido, dá um tranco por detrás na Cleusinha, a Descabelada. E vão engatados até a cozinha. Ele com a força e ela derretida.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Adão Nascimento, talento e opinião

 por Laerte Rimoli 
 
Adão Nascimento. Um jornalista grandão, com coração de menino. Obrigado pela convivência. Ficamos um mês inteiro em Manaus, pelo jornal O Estado de S.Paulo, perseguindo mercenários que levavam armas para a Nicarágua. Era o início dos anos 80, em pleno regime militar. 
Corajoso, ele se enfiou sob o arame farpado que circundava o Aeroporto Eduardo Gomes, na capital amazonense, para chegar ao alvo, um avião Ilyushin, de bandeira Líbia, que tinha no interior armamento para a guerrilha da Nicarágua. Flagrante violação do espaço aéreo nacional.
O presidente Castello Branco  (de terno escuro, em primeiro plano, inaugurando uma rodovia no DF em 21 de abril de 1966: estou sorridente, sabe-se lá por quê, sem terno nem gravata, atrás do general Ernesto Geisel
Presidente Costa e Silva com jornalistas. 
Abaixo o último dos generais presidentes: Figueiredo, assina, a Lei da Anistia, 1979.


 Interceptado por dois recrutas da Força Aérea Brasileira armados com baionetas, Adão desdenhou da ameaça, afastou com o corpanzil quem tentava intimidá-lo e, máquina fotográfica no peito, altivo, chegou à escada do avião. Invadiu o interior da aeronave, espaço reconhecido por acordos internacionais como território estrangeiro e arrancou a primeira página. Seu olhar brilhava como criança que acaba de praticar uma traquinagem. Meu texto serviu apenas de suporte à bravura daquele jornalista ousado. Maior privilégio ter vivido isso contigo amigão. Vai com Deus. Missão cumprida. 
Ainda sobre o Adão Nascimento. Era homem "opiniudo". Não se incomodava de fazer inimigos na defesa intransigente dos seus pontos de vista. Presidiu, com mão de ferro e sabedoria, o Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto. Lutou contra a discriminação a repórteres fotográficos. Grande Adão. (Acima alguma das fotos do querido fotógrafo, colega de trabalho por décadas em Brasília. Faleceu ontem, 24, no início da tarde, no Rio de Janeiro, aos 82anos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Que saudade danada da Valéria!


 

Fins de outubro de 1982, ainda meio frio naquelas paragens da Zona da Mata mineira. Caminho pelo calçadão da Rua Halfed,  em Juiz de Fora, ao encontro de uma amiga que Antonieta Goulart queria me apresentar. Tratava-se de gente importante, repórter da então Globo local que entrava até no Jornal Nacional. Mas eu, intoxicado pelas novidades de Nova York, de onde acabava de chegar, não estava muito interessado. Tudo me parecia acanhado demais, liliputiano mesmo. Até encontrar Valéria.

  Ela vinha saindo da redação de blazer de linho e calça jeans, sapato mocassim combinando com o cinto. O cabelo cor de mel refletia os últimos raios do sol da tarde  e os olhos vivos saltavam do rosto cor de cobre separados por um nariz levemente aduncado. Lindos olhos tinha a Valéria. Os gestos decididos e a voz de comando faziam-na parecer maior do que era. Fiquei imediatamente encantado por ela.

  Tímido, me apresentei como um quase engenheiro que acabava de chegar de uma extraordinária aventura novaiorquina. “Também morei nos Estados Unidos, um  intercâmbio na Califórnia”, respondeu. Essa foi a chave que abriu a porta dos domínios onde eu e ela fomos felizes e infelizes por quase trinta anos, quase sempre muito próximos.

   Ao longo de todo esse tempo, nosso domínio mudou de domicílio. De BH para Londres e de lá para cá, o Rio, cidade que ela mais amava. E foi aqui que fomos mais felizes e loucos, mais loucos que felizes. Mas mesmo nos momentos de alegria, Valéria sempre demonstrava um certo incômodo. Em Londres reclamava muito da sisudez dos ingleses. No Rio, era a falta de civilidade generalizada que a exasperava. Tinha razão nos dois casos. Acho que Valéria não nasceu pra este mundo.

   Mesmo assim, era capaz de uma ternura desmedida. Sabia fazer um amigo se sentir importante. Não tinha vergonha nenhuma de proclamar seus poucos amores.  Gostava de receber em casa e sempre inventava uma desculpa pra não sair. Pra convencê-la a vir a minha casa, lançava mão de estratagemas às vezes trabalhosos. A última vez que tive sucesso foi quando cozinhei uma moqueca de camarão – que ela amava – e decretei: 'se você não vier eu fico com raiva'. Felizmente veio e foi a última vez que conversamos ainda sem nos darmos conta da ameaça permanente da morte.

  Valéria faria hoje 59 anos. Por mais que já se tenha passado quase um ano e meio, ainda a vejo de relance nas ruas do Leblon. E num desses dias de sol escaldante acordei com vontade de ligar pra convidá-la prum chopinho na praia. Raramente ela se aventurava além do calçadão, mesmo porque, cumpridora da lei, não permitia que Pablo brincasse na areia.

   Hoje vou ao Leblon no fim da tarde para homenageá-la. Era lá que ela passeava com o Pablo, companheiro de todas as horas. A saudade dói ainda muito forte, latejada como disse Chico. Continuo achando absurdo que ela não esteja aqui. Não entendo ainda essa partida tão prematura. Ainda não aprendi totalmente a lidar com a ausência dela. Talvez daqui um tempo a lembrança me faça companhia. Mas hoje ela ainda é um espeto fincado no coração.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

SOWETO, SOU GUETO

por Memélia Moreira
 
Nas minhas muitas inquietudes que se traduziram em viagens, fui a um país que me fascinava e pelo qual sentia repulsa. O deserto de Kalahari, a altivez do povo Zulu, o repugnante apartheid que marcou a história do país, Nélson Mandela, Dom Desmond Tutu, o escritor J.M. Coetzee, a África do Sul sempre frequentou meu mapa aventureiro. E foi assim que em 2000 embarquei para aquele país, onde a África flerta com a Austrália, a duas esquinas do fim do mundo.
 
 
Cruzei o deserto de Kalahari, porque os desertos me magnetizam, estive em Joanesburgo, Durban, Pretória, Cidade do Cabo, mas não ouvia ninguém me indicando uma visita ao Soweto, a favela da resistência negra que se transformou em cidade, ao lado de Joanesburgo. Mas foi lá que vivi uma das grandes emoções de minha vida. 
 
 
Não havia hotel em Soweto. Nem brancos. Fui de táxi. O motorista, um ex-piloto chamado Isak, não gostou quando lhe disse que voltasse no dia seguinte para me buscar. É que decidi dormir em Soweto. Ele fez careta garantindo que o lugar era perigoso para negros e não negros. Ignorei o conselho e rodei a favela, até encontrar a "Casa di Stella", um bar-restaurante, onde à noite negros se reuniam para tocar jazz e que foi também minha pousada na noite de 9 de março de 2000. 
 
Stella, a proprietária, me recebeu como se me conhecesse e quando lhe disse que queria dormir na favela, não se alterou e me levou a um cubículo com esteiras de palha nova e disse que eu podia dormir ali, "sem medo". Perguntou se eu ia almoçar e me deu um guia para visitar a favela.
 
Estive na casa onde Mandela viveu antes de passar 27 anos na cadeia. Toda perfurada de balas, chão batido, a casa era só o prenúncio do que me esperava. Caminhei pelas ruas e, vi uma escola quando, de repente, percebi um  Memorial. Eu estava exatamente no lugar onde acontecera o "Massacre de Soweto". 
 
Meu corpo sacudiu e chorei. Era hora da saída da escola. As crianças, pulando e rindo, vinham em debandada. Foi aí que tive a exata noção do que aconteceu no dia 16 de junho de 1976. Estudantes faziam um protesto pacífico por melhores condições de ensino e foram massacrados. A polícia descarregou suas balas usou bomba de gás lacrimogêneo e testou bomba de petróleo. Quatro estudantes foram mortos. Um deles, Hector Pierson, tinha 13 anos. Conhecia a história porque o noticiário correu o mundo e vi pela televisão no momento em que amamentava Cristina, minha filha mais velha. Naquele março de 2000 chorei tanto ou mais do que em junho de 1976 porque pensei em outros massacres onde mataram crianças. E escrevi o "poema" que se segue.
 
Antes de mais nada, peço desculpas porque não sei se é exatamente um poema. vamos chamá-lo apenas de "poético".
 
Ruas de lata,
homens de luta.
Terra cinzenta de um povo
da cor da noite
Soweto, Soweto.
Sou gueto.
O mesmo sorriso fácil das crianças
do Jardin de Luxembourg', Hyde Park, Manhhatan,
Diauarum, Mekness, Lago Sul.
O mesmo alarido infantil
nos uniformes em azul e branco na saída da escola.
Mas conheceram o sangue,
antes de conhecerem a vida.
Too young to die, e mesmo assim
se foram naquele inverno de 76.
Pobre menino negro e seu olhar perplexo,
carregando um corpo igual na cor, nos sonhos, na sina.
Meu corpo estremeceu no teu Memorial e
as bombas de petróleo ecoavam em todos os meus sentidos.
Soweto, MyLai, Puerto Cabezas, Haximu, Rocinha, Kosovo, Sabra, Chatila, Treblinka
Minhas crianças que jamais crescerão.
Por que plantaram tantos hectares de ódios? Por que?
Soweto do langor mississipiano, do sax de liberdades.
Soweto livre no batuque da rua, reconstruindo a desconstrução.
Soweto desafio da pátria resistente,
te entrego aqui lágrimas e minhas mãos para dançarmos a ciranda 
das emoções, nesta aldeia universal.
Soweto, meu povo, meu amor.

Em 09/03/2000